Crítica | Tick, Tick…Boom!

Nota
4

Jonathan Larson (Andrew Garfield) é um jovem compositor de teatro, que trabalha como garçom em Nova York enquanto sonha em escrever um grande musical que o leve ao estrelato. Faltando poucos dias para apresentar seu trabalho em uma performance decisiva, Jon sente a pressão vindo de todos os lados: de sua namorada Susan (Alexandra Shipp), que deseja uma vida longe da agitação da cidade; e de seu melhor amigo e ex-colega de quarto, Michael, que abandona o mundo artístico para aceitar um emprego corporativo e buscar estabilidade financeira. Com o aniversário de 30 anos se aproximando, Jon é tomado pela angústia de que talvez seu sonho seja inalcançável e que talvez o tempo esteja se esgotando.

Baseado em fatos reais, o filme da Netflix lançado em 2021, que rendeu a Andrew Garfield uma merecida indicação ao Oscar de Melhor Ator, retrata a trajetória intensa e sensível de Jonathan Larson, criador do icônico musical Rent. Larson faleceu tragicamente aos 35 anos, na noite anterior à estreia off-Broadway do espetáculo que mudaria o teatro musical para sempre, vítima de um aneurisma da aorta não diagnosticado.

Com o ponto de partida centrado na criação de Superbia, um musical futurista que jamais chegou aos palcos, o longa mergulha nos bastidores da vida de um artista determinado, apaixonado e inquieto. Superbia, concebido para abordar as angústias de uma geração frente à pobreza, à opressão social, à homossexualidade, à liberação sexual e à epidemia da AIDS, é o reflexo do tempo e da própria vida de Larson. Entre crises criativas, cobranças internas e as dificuldades de se manter fiel à própria arte em meio à realidade implacável, ele canaliza suas dores em música.

Larson passou anos trabalhando como garçom no Moondance Diner, em Manhattan, para financiar sua arte. A produção retrata esse embate entre sobrevivência e vocação de forma poderosa e poética. Ainda que Superbia não tenha sido montado, sua experiência serviu como combustível para o espetáculo seguinte, aquele que, ironicamente, ele jamais viu em cartaz, mas que garantiu seu lugar na história do teatro musical.

Mais do que uma biografia, Tick, Tick… BOOM! é uma carta de amor ao processo criativo e uma homenagem aos artistas que ousam sonhar alto em um mundo que constantemente os desafia. A direção de Lin-Manuel Miranda capta com sensibilidade a pulsação de uma Nova York dos anos 1990, vibrante, caótica e viva cenário perfeito para as contradições de Jon: genialidade e insegurança, paixão e frustração, vida e morte.

Ao longo do filme, acompanhamos Jon descobrindo que o verdadeiro sucesso talvez não esteja apenas em alcançar os holofotes, mas em tocar as pessoas ao redor e, principalmente, em não desistir de ser quem se é, apesar de tudo. A atuação visceral de Garfield confere humanidade ao personagem, nos conduzindo por uma montanha-russa emocional que culmina na constatação dolorosa, porém libertadora: o tempo é finito, e criar é um ato de urgência. Tick,Tick… BOOM! é um lembrete de que, enquanto houver vida, haverá histórias a serem contadas e Jonathan Larson, com sua breve existência, escreveu uma das mais memoráveis.

 

Professor, escritor, tradutor, blogueiro, entusiasta em tecnologia, nerd e pseudo intelectual.

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