Crítica | Missão Porto Seguro

Nota
3

Missão Porto Seguro nunca teve ambição de ser um épico homérico — e tudo bem. A proposta é clara: uma comédia adolescente nacional com estética pop, situações absurdas e um texto recheado de memes e gírias da internet. Considerando o recorte proposto, o longa até se sai bem ao garantir um entretenimento leve e ocasionalmente divertido, mesmo quando tropeça em excesso de estereótipos e soluções fáceis.

Giovanna Lancellotti interpreta Denise, uma policial de 30 anos, rígida, antiquada e completamente fora de sintonia com a juventude atual. Após falhar em uma operação na casa do mafioso Silvio Quintella (Marcelo Médici), por não conseguir informações valiosas, Denise é suspensa por seu pai e chefe, o Delegado Genaro (Miguel Falabella). Movida pelo desejo de provar seu valor — e agradar o pai —, ela decide, por conta própria, se infiltrar clandestinamente em uma viagem de formatura adolescente rumo a Porto Seguro. Sua missão? Descobrir a localização de um carregamento de Silvio.

A premissa é absurda o suficiente para render bons momentos de humor, ainda que o roteiro nem sempre saiba o que fazer com eles. É Ademara, no papel de Babi, quem mais se destaca. Sua personagem é uma adulta que se recusa a deixar a farra de lado e continua fingindo ser adolescente para viver eternamente no agito. Com timing cômico apurado, carisma de sobra e uma entrega sempre divertida, Ademara brilha mesmo quando o filme se perde — sua presença injeta energia e graça até nos momentos mais fracos.

O elenco jovem também traz certo frescor ao filme. Sophia Valverde (Silvia Quintella), Raphael Vicente (Jota), Igor Jansen (Magno) e Letícia Pedro (Enza) são o grupo de adolescentes que a protagonista precisa se aproximar, e ajudam a aproximar o filme do público mais novo. Embora sejam nomes promissores e com forte apelo nas redes sociais, a maioria não consegue sustentar uma atuação sólida o suficiente para dar profundidade aos seus personagens, o que acaba enfraquecendo o impacto emocional da história.

É quase inevitável lembrar de Nunca Fui Beijada ao acompanhar essa história: uma figura adulta que se infiltra num ambiente jovem em busca de uma missão, e, no caminho, acaba redescobrindo a si mesma. Só que aqui a repórter é substituída por uma policial durona, e o colégio por uma viagem de formatura rumo a Porto Seguro, com todas as referências culturais, sons de axé e clichês de adolescente brasileiro que você pode imaginar. Essa releitura tropicalizada do clássico teen americano dá ao filme uma certa originalidade, mesmo que seja mais pela identidade nacional do que por inovação narrativa e falte refinamento e sobriedade no texto.

No fim, Missão Porto Seguro cumpre a missão de entreter. É raso? Sim. Mas também é honesto na proposta e consciente do público que quer atingir. Não revoluciona, não emociona, mas diverte dentro do seu próprio escopo. A trama poderia ter sido mais refinada, o humor mais inventivo e os personagens mais aprofundados, mas há valor em uma comédia que se assume pelo que é e ainda proporciona boas risadas — especialmente quando se tem um elenco afinado que entende o tom da bagunça que está interpretando. Para quem busca diversão sem exigir muito da trama — e não se importa em ver a lógica sendo sacrificada pela comédia —, a viagem até Porto Seguro pode render boas risadas.

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

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