Nota
Janiyah Wilkinson é uma mãe solo que vive em um apartamento precário com sua filha Aria, uma criança que depende de medicamentos caríssimos para tratar as complicações decorrentes de um nascimento prematuro. Em uma manhã marcada por tragédias cotidianas — do aviso de despejo à demissão súbita —, Janiyah entra em colapso emocional e, num ato de desespero, acaba envolvida em um sequestro-relâmpago dentro de uma agência bancária. Essa é a premissa de Straw, novo drama de Tyler Perry lançado em 6 de junho de 2025 pela Netflix, protagonizado por Taraji P. Henson, Sherri Shepherd e Teyana Taylor.

Claramente inspirado por diversos thrillers psicológicos — como o clássico Um Dia de Cão (1975) —, o filme conduz o espectador por uma espiral de tensão crescente, colocando Janiyah no centro de uma desventura movida pelo nervosismo e, sobretudo, pelo amor visceral à filha. A narrativa mergulha profundamente no colapso emocional de uma mulher negra e pobre diante do peso insuportável da marginalização econômica, da violência simbólica e da intolerância institucional.
Straw se compromete com essas camadas ao ponto de transformar o título simbólico — “a última gota” — em metáfora viva: o filme constrói, passo a passo, a sensação de um balde emocional sendo preenchido até transbordar. Um acontecimento-chave — que não pode ser revelado sem entregar o impacto da trama — é o estopim que a faz romper. Nesse instante, somos levados a testemunhar a ruína silenciosa de alguém que, sem qualquer saída, se agarra desesperadamente ao que resta de sua força vital.
A atuação de Taraji P. Henson é, sem dúvida, o ponto mais forte do longa. Sua Janiyah é uma presença arrebatadora — vulnerável nos gestos, tensa no olhar, mas imbuída de uma dignidade comovente. Em cada tranco de porta, em cada súplica abafada dentro do banco, ela encarna o desespero silencioso de tantas mulheres negras e pobres que carregam o fardo de sustentar suas famílias em meio a um sistema que constantemente as ignora ou sufoca. Sherri Shepherd, como a gerente da agência, e Teyana Taylor, no papel da policial que assume a negociação da crise, contribuem com interpretações igualmente sensíveis e potentes, adicionando camadas de humanidade e empatia à tensão crescente. São raros os momentos em que o elenco perde o ritmo — e mesmo assim, esses lapsos não comprometem o impacto emocional que o filme constrói com firmeza.

Tecnicamente, Até a Última Gota carrega a assinatura dramática de Tyler Perry: fotografia crua, cortes secos que prolongam o desconforto e uma montagem direta que se recusa a suavizar os dilemas da tela. A ausência de trilha sonora marcante, substituída por silêncios incômodos e ruídos cotidianos, reforça a tensão realista e quase documental da narrativa — o som da respiração pesada de Janiyah diz mais do que qualquer orquestra poderia. Ainda assim, o ritmo por vezes oscila: transições importantes, como a passagem entre o dia e a noite, são apressadas, e o clímax força um suspense grandioso demais para um filme que se sustenta melhor na empatia contida. No fim das contas, Straw é um drama social de impacto, impulsionado por uma performance visceral de Taraji P. Henson e por um roteiro que transforma a banalidade do sofrimento em denúncia. Perry não reinventa o gênero e, por vezes, escorrega em uma teatralidade desnecessária, mas entrega uma obra que ressoa no emocional e confronta o olhar do público sobre classe, raça, maternidade e dignidade. Talvez lhe falte a sutileza que transforma intensidade em poesia, mas sobra coragem para atingir, sem rodeios, o coração.
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.