Crítica | Crush: Amor Colorido (Crush)

Nota
3

Em um cenário cinematográfico onde as narrativas queer muitas vezes oscilam entre a tragédia e a fetichização, Crush: Amor Colorido emerge como um sopro de ar fresco, trazendo uma representação autêntica e alegre do amor entre mulheres. Dirigido por Sammi Cohen, cineasta não-binárie que imprime sua perspectiva única em cada frame, o filme transcende o rótulo de simples comédia romântica adolescente para se tornar um manifesto visual sobre autoaceitação, diversidade e a beleza das relações queer. O que poderia ser apenas mais um filme sobre descobertas amorosas no ensino médio transforma-se numa obra que reescreve as regras do gênero, provando que histórias LGBTQIA+ podem ser leves, profundas e universalmente cativantes.

A grande força de Crush reside em sua abordagem descomplicada da identidade queer. Diferente de tantas produções que tratam a sexualidade como um conflito a ser superado, aqui acompanhamos Paige (Rowan Blanchard em uma performance cheia de nuances), uma jovem artista que já está confortável com sua atração por mulheres, mas se vê imersa nas dúvidas e ansiedades típicas do primeiro amor. Seu dilema não é “se assumir”, mas sim navegar pelas complexidades de um triângulo amoroso inesperado, onde cada vértice representa diferentes facetas do desejo e da autodescoberta. Essa normalização da experiência queer – mostrando que adolescentes LGBTQIA+ também vivem conflitos cotidianos sobre amor, amizade e futuro – é revolucionária em sua simplicidade.

A direção de Sammi Cohen merece análise detida. Como artista não-binárie, Cohen traz uma sensibilidade rara ao retratar relações entre mulheres, evitando tanto o olhar masculinizado quanto a abordagem excessivamente dramática. Suas escolhas visuais são particularmente notáveis: a paleta de cores vibrantes que pinta o mundo de Paige reflete sua jornada interior, enquanto as sequências de animação (integradas à narrativa através dos desenhos da protagonista) criam uma linguagem visual única para expressar emoções que palavras não conseguem capturar. As cenas de intimidade são tratadas com uma naturalidade rara – longe dos closes desconfortáveis ou cortes abruptos que marcam tantas produções sobre relacionamentos lésbicos. Cohen permite que o afeto flua organicamente, mostrando que o amor entre mulheres pode (e deve) ser retratado com a mesma doçura e espontaneidade que o heteronormativo.

O elenco, cuidadosamente escolhido, é outro triunfo do filme. Rowan Blanchard (Garota Conhece o Mundo), já conhecida por seu ativismo LGBTQIA+, traz uma vulnerabilidade encantadora à Paige, equilibrando humor e profundidade em cada cena. Auli’i Cravalho (a voz de Moana) como AJ desafia estereótipos ao interpretar uma atleta confiante cuja sexualidade é apenas um aspecto de sua personalidade multifacetada. Isabella Ferreira (Com Amor, Victor) completa o triângulo amoroso como Gabby, trazendo uma energia magnética que complica deliciosamente a vida da protagonista. O filme ainda se destaca por sua representação inclusiva de corpos, etnias e expressões de gênero, apresentando um universo escolar que reflete a diversidade do mundo real – onde pessoas queer não existem isoladas, mas como parte de uma comunidade vibrante.

A narrativa de Crush brilha ao subverter expectativas. Enquanto muitas comédias românticas adolescentes dependem de mal-entendidos artificiais ou terceiros atos dramáticos, aqui os conflitos surgem organicamente das personalidades complexas dos personagens. O roteiro inteligente de Kirsten King e Casey Rackham evita clichês, permitindo que as relações se desenvolvam através de diálogos afiados e situações que soam verdadeiras. A cena do beijo, momento crucial em qualquer romance adolescente, é particularmente bem resolvida – tratada com a mesma importância e naturalidade que teria em qualquer outro filme do gênero, sem o peso desnecessário da “grande revelação” que tantas narrativas queer carregam.

Alguns podem argumentar que o filme peca por não explorar mais profundamente certos subplots ou por simplificar demais algumas dinâmicas sociais. No entanto, essa aparente “simplicidade” é precisamente o que torna Crush tão importante. Num mundo onde jovens LGBTQIA+ ainda são constantemente bombardeados com narrativas sobre sofrimento e rejeição, ter um filme que mostra o amor queer como algo natural, alegre e digno de ser celebrado é revolucionário. Sammi Cohen e sua equipe criaram não apenas um entretenimento cativante, mas um farol de esperança – prova de que o cinema mainstream pode e deve abraçar a diversidade sem concessões.

Crush: Amor Colorido é mais que um filme – é um marco cultural. Ao tratar a identidade queer com normalidade e alegria, sem apagar suas particularidades, ele abre portas para um novo tipo de representação no cinema. Para jovens LGBTQIA+, é um espelho que reflete possibilidades de felicidade; para o público em geral, uma janela para compreender que o amor, em todas suas formas, merece ser celebrado. Num panorama cinematográfico ainda marcado pela carência de narrativas queer autênticas, obras como esta não são apenas bem-vindas – são essenciais. Que venham muitas outras, com a mesma ousadia, sensibilidade e, acima de tudo, respeito pelas histórias que contam.

 

Pernambucano, jogador de RPG, pesquisador nas áreas de gênero, diversidade e bioética, comentarista no X, fã incontestável de Junji Ito e Naoki Urasawa. Ah, também sou advogado e me arrisco como crítico nas horas vagas.

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