Nota
“‘É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro em posse de grande fortuna deve procurar uma esposa’
Sabe quem disse isso? Jane Austen, a rainha.”
Noah, Howie, Luke, Keegan e Max têm uma tradição inegociável: todos os anos, eles passam as férias juntos em Fire Island, o famoso refúgio na costa sul de Long Island conhecido como uma espécie de Disney para gays. Mas desta vez, as coisas estão prestes a mudar. Erin, a amiga lésbica mais velha que sempre os acolheu em sua casa na ilha, está enfrentando dívidas e decidiu vender o imóvel, o que pode fazer daquele verão o último de todos juntos por ali. Com esse clima de despedida no ar, Noah assume para si a missão de ajudar seu melhor amigo, Howie, a encontrar alguém que o ame exatamente como ele é. O que deveria ser uma viagem de diversão e companheirismo logo se transforma numa comédia de encontros desastrosos, dinâmicas de amizade intensas e, claro, confrontos com o grupo dos gays ricos da ilha, liderados por Charlie, um médico gentil que logo desperta o interesse de Howie, arrastando todos para um turbilhão de encontros, inseguranças e descobertas.

Em 2019, a extinta plataforma de streaming Quibi anunciou Trip, uma série de comédia criada, escrita e estrelada por Joel Kim Booster, com a proposta de mostrar comediantes asiáticos gays interpretando versões fictícias de si mesmos. No ano seguinte, Bowen Yang foi confirmado como co-protagonista, mas o cancelamento repentino da Quibi interrompeu o projeto. Felizmente, em 2021, a Searchlight Pictures decidiu resgatar o roteiro de Booster, reformulando-o como um longa-metragem e rebatizando-o como Fire Island, com direção de Andrew Ahn e mantendo Booster e Yang nos papéis principais. Não demora muito para perceber que a estrutura original de série ainda pulsa no DNA do filme: o enredo é dividido por dias da viagem, como se fossem episódios, e a própria ideia de uma tradição anual de férias renderia facilmente várias temporadas. Essa herança de formato deixa claro o potencial que a história teria para aprofundar personagens e conflitos, caso tivesse sido pensada desde o início como um projeto episódico.
O longa pode até ser classificado como uma comédia romântica gay leve, mas toda a atmosfera de besteirol despretensioso é apenas a primeira camada de uma história com muito mais a dizer. Dominando boa parte do tempo de tela, Joel Kim Booster constrói um Noah multifacetado: ele é o mais próximo dos padrões de beleza dentro do grupo, e o roteiro faz questão de mostrar como isso o torna mais bem-sucedido nas interações amorosas durante as festas da ilha. Justamente por isso, sua decisão de entrar em um autoimposto celibato até que Howie encontre alguém especial ganha um peso emocional inesperado. Embora o filme reserve espaço para as subtramas que envolvem o flerte entre Noah e Will, além da tensão com Dex, o verdadeiro romance central da narrativa é o de Howie e Charlie — ainda que eles tenham menos tempo de tela. No fim das contas, por trás de todas as histórias de paquera, o que Fire Island realmente entrega é uma discussão sobre amizade, afeto coletivo e a importância de uma rede de apoio entre pessoas queer que, de diferentes formas, sempre foram vistas como desajustadas.

É interessante observar como Fire Island escolhe destacar um grupo de gays fora do padrão, inserindo-os em meio a uma ilha dominada por caras brancos, sarados e ricos. Mais uma vez, fica evidente que o material teria ganhado muito mais profundidade se tivesse sido mantido no formato de série, como na proposta original. A trama ganha força justamente quando decide criticar abertamente as dinâmicas excludentes da vida real, alternando essas críticas com cenas mais fantasiosas, românticas e até um pouco idealizadas — como uma forma de tornar a comédia romântica mais palatável para um público que, talvez, pudesse se sentir incomodado com o espelho social que o roteiro oferece. Essa escolha de tom, inclusive, diferencia bastante Fire Island de Bros, outro recente exemplar de comédia romântica gay que também expõe as contradições dentro da própria comunidade LGBTQIA+. Mas enquanto Bros opta por um humor mais ácido e direto, Fire Island prefere o caminho da leveza, resultando em uma experiência mais doce, digerível e menos dolorosa para quem está do outro lado da tela.
Divertido na medida certa, Fire Island: Orgulho & Sedução entrega muito mais do que um simples romance queer de verão; o longa oferece uma verdadeira reflexão sobre família — aquela que escolhemos, cultivamos e amamos acima da que nascemos. Apesar de sua premissa inicial sugerir um típico besteirol, a produção se revela uma deliciosa comédia romântica gay, equilibrando com inteligência humor, crítica social e momentos de afeto genuíno. As provocações aos preconceitos enraizados dentro da própria comunidade LGBTQIA+ surgem de forma direta, mas sem perder a sutileza, enquanto o romance entre Howie e Charlie, por mais improvável que pareça na vida real, cumpre perfeitamente seu papel emocional, ajudando a traduzir as inseguranças e esperanças do personagem. O público facilmente se apaixona tanto pelo complexo e adorável Howie quanto pelo carismático e inabalável Noah. Se há um lamento a fazer, é a falta de espaço para explorar mais a fundo figuras como Luke, Max e Erin, personagens que demonstram ter camadas interessantes, mas acabam ficando à margem de um roteiro que, por necessidade de foco, escolhe priorizar apenas alguns arcos emocionais.
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.