Crítica | Superman

Nota
4.5

Pode parecer ingênuo, ou até antiquado, acreditar em bondade em tempos tão cínicos. Mas quando um filme tem coragem de se apoiar nesse valor com sinceridade, sem medo do ridículo, o resultado pode ser surpreendentemente eficaz. Em vez de tentar reinventar o que já funciona, há produções que apenas se dedicam a fazer o básico bem feito — e isso, por si só, já é um mérito.

Superman, dirigido por James Gunn, é exatamente isso: um retorno ao essencial. Não é uma revolução, nem uma desconstrução — é uma reconstrução honesta de um símbolo clássico. Gunn entende que o personagem não precisa de mais trauma, nem de revisionismo sombrio. O que ele precisa é de espaço para ser aquilo que sempre representou: esperança. O filme é direto, simples em sua estrutura, mas generoso em detalhes que revelam carinho pelo universo e, principalmente, pelo protagonista

David Corenswet assume o manto com naturalidade. Seu Clark Kent tem a leveza necessária para nos convencer de sua humanidade e a firmeza suficiente para fazer crer em seu idealismo. É um Superman que não se impõe pela força, mas pela presença — e isso faz diferença. Rachel Brosnahan está excelente como Lois Lane, com energia, ironia e uma dinâmica convincente com Clark. Ela não é coadjuvante: é força motora, investigativa, ativa e, principalmente, humana em meio a super-seres. Já Nicholas Hoult entrega um Lex Luthor que acerta justamente por ser o que o público queria há tempos: frio, estratégico, manipulador e sempre um passo à frente. Seu carisma não está no charme ou no humor — está no perigo constante que sua mente representa.

A equipe secundária — apelidada informalmente de “Gangue da Justiça” — também funciona. Apesar de ter muitos personagens em tela, Gunn consegue dar a cada um um momento de destaque. Nathan Fillion diverte como o Lanterna Verde Guy Gardner, Isabela Merced tem presença como Hawkgirl, e Anthony Carrigan traz humor involuntário e doçura como Metamorpho. Mas o destaque vai para Edi Gathegi, cujo Senhor Incrível surge como alguém que gostaríamos de ver mais. Inteligente, ponderado, com carisma discreto, ele parece carregar consigo um outro tipo de heroísmo — mais contido, mas igualmente necessário.

Jimmy Olsen (Skyler Gisondo), vivido com carisma despretensioso, é outro acerto da narrativa. Sua relação com Clark traz leveza e humanidade à rotina do Planeta Diário, e seu papel vai além do alívio cômico habitual. Ele é um jovem observador, curioso, e profundamente leal — um contraponto afetivo necessário diante de um mundo que constantemente parece desmoronar

O filme tem ritmo ágil, mesmo com algumas quebras de tom. Há um cuidado claro em equilibrar ação, drama e comédia — algo característico de Gunn —, e em sua maior parte o equilíbrio funciona. Os diálogos têm graça, mas também espaço para pausas e silêncios. As cenas de ação não são as mais inventivas do gênero, mas são bem executadas e integradas à trama, sem parecerem inserções obrigatórias. Há efeitos em abundância, como se espera, e nem todos convencem, mas o estilo cartunesco adotado abraça a artificialidade de forma consciente

Visualmente, o filme aposta em um colorido quase nostálgico, com enquadramentos que evocam tanto os quadrinhos clássicos quanto um senso de espetáculo mais leve e acessível. A direção de arte abraça o exagero — e isso funciona a favor da proposta. Tudo é assumidamente grandioso, mas nunca frio. As cores vibram, os uniformes não têm vergonha de parecerem saídos de gibis antigos, e os cenários se revezam entre o urbano e o cósmico com fluidez. É um mundo crível dentro da própria lógica: maior que a vida, mas ainda assim acolhedor.

Krypto, o Supercão, talvez seja a figura que melhor representa o espírito do filme. Poderia facilmente ser apenas um recurso cômico, mas acaba funcionando como elo emocional do protagonista com seu passado kryptoniano. Ele tem cenas engraçadas, claro, mas também momentos que reforçam vínculos e afeto. É esse tipo de detalhe que torna o filme mais caloroso, mais disposto a emocionar do que apenas impressionar. Krypto não é só mascote: é parte da identidade emocional do herói.

E quando o longa parece que vai encerrar com uma celebração dos valores clássicos, Gunn dá espaço a um toque de tensão adicional ao revelar, em sua cena final, a verdadeira identidade de quem está por trás do capuz do Ultraman. Sem entregar spoilers, é uma virada que não apenas funciona como gancho narrativo, mas que recontextualiza sutilmente parte do que foi visto até então. É o tipo de final que atiça a curiosidade e estabelece novas possibilidades sem anular a conclusão do arco atual.

Ainda assim, nem tudo funciona perfeitamente. Algumas soluções narrativas são fáceis demais. Em outros momentos, falta peso emocional em situações que pediam mais tempo ou consequência. E embora o filme acerte no tom, fica a sensação de que ainda falta algo mais profundo para sustentar o impacto. Talvez seja a ausência de um grande dilema moral, ou o fato de que, mesmo com tantos elementos bem orquestrados, falta uma centelha que o torne verdadeiramente inesquecível. Há espaço para ousar mais — e talvez isso venha nas próximas produções do novo universo DC

Também é válido destacar o acerto de James Gunn ao entender que o humor precisa estar a serviço dos personagens, e não o contrário. Ao contrário de outros filmes da DC e até da Marvel, em que a piada entra para abafar a emoção, aqui ela surge de forma orgânica. Kendra e Guy Gardner arrancam risos não por tentarem ser engraçados, mas por serem quem são. Essa diferença de abordagem torna os momentos de leveza mais efetivos, e permite que os momentos dramáticos não sejam sabotados.

No geral, Superman é um bom filme, talvez até um ótimo recomeço. Não pretende reinventar nada — e isso, no caso desse personagem, é um acerto. Ao respeitar a mitologia e modernizá-la com afeto, Gunn entrega um capítulo inaugural honesto, com boas atuações e uma mensagem clara. O filme não quer impressionar pela força, mas tocar pela simplicidade. E quando o assunto é Superman, talvez isso seja tudo o que a gente precisava. E, quem sabe, tudo o que o próprio cinema de super-heróis também estava precisando: menos cinismo, mais coração.

 

Pernambucano, jogador de RPG, pesquisador nas áreas de gênero, diversidade e bioética, comentarista no X, fã incontestável de Junji Ito e Naoki Urasawa. Ah, também sou advogado e me arrisco como crítico nas horas vagas.

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