Review | Blood & Water [Season 1]

Nota
4

“Mãe, já ouviu falar do Colégio Parkhurst?”

Em 16 de agosto de 2003, Phumelele Khumalo foi levada do hospital poucos instantes após nascer — e nunca mais foi vista. Anos depois, Puleng Khumalo ainda vive à sombra do luto e da culpa que rondam sua família desde o desaparecimento da irmã mais velha. Mas tudo muda quando sua melhor amiga, Zama, a convida para a badalada festa de aniversário de Fikile Bhele, uma jovem popular, rica e estrela da natação no prestigiado Colégio Parkhurst. Ao notar uma semelhança inquietante entre ela e Fikile, Puleng se vê envolvida por uma suspeita que pode mudar sua vida: e se Fikile for, na verdade, sua irmã desaparecida? Movida pela dúvida, ela se matricula em Parkhurst para se aproximar da garota — e acaba se infiltrando em um universo repleto de segredos, jogos de poder e revelações obscuras no coração da Cidade do Cabo.

Sangue e Água foi oficialmente anunciada em fevereiro de 2019, tornando-se a segunda produção original sul-africana da Netflix. Desenvolvido pela Gambit Films, o drama adolescente é dirigido por Nosipho Dumisa e escrito por Daryne Joshua e Travis Taute. Apesar de seguir uma estrutura coming of age, a série abre espaço para discussões mais densas — como tráfico humano, corrupção empresarial e os segredos obscuros que permeiam famílias ricas da Cidade do Cabo. Embora protagonizada por Ama Qamata e Khosi Ngema, é Ama quem guia toda a trama como Puleng. A série evita soluções fáceis: ainda que a semelhança física entre Fikile e Phume seja evidente, o roteiro sabe brincar com os limites realistas de uma investigação sem apelar para conveniências. Desde o início, surge a possibilidade de um teste de DNA, mas a narrativa constrói obstáculos verossímeis que tornam essa solução imediata inviável. Não há buracos que invalidem a motivação de Puleng para investigar a fundo, e ao mesmo tempo ela nunca é transformada em uma superdetetive. A série deixa as pistas claras o suficiente: não é preciso ser um gênio para ligar os pontos, basta fazer as perguntas certas para as pessoas certas.

Khosi Ngema assume uma missão densa ao interpretar Fikile, personagem que transita entre o papel de aliada e antagonista na jornada de Puleng. Ela percebe que há algo intrigante na novata e em sua fixação, oscilando entre confiança e desconfiança, o que mantém a trama adolescente viva, instável e deliciosamente ambígua. O público passa boa parte da temporada dividido entre simpatizar ou desconfiar de Fikile — e isso é mérito tanto do roteiro quanto da atuação. Ao redor delas, brilham coadjuvantes que também carregam camadas e arcos próprios. Wade Daniels (Dillon Windvogel) é o primeiro aluno de Parkhurst a se aproximar de Puleng. Filho da diretora e apaixonado pela garota, ele se torna um aliado fundamental na busca por Phume, mesmo que seus sentimentos passem despercebidos por ela. Já KB Molapo (Thabang Molaba), aspirante a rapper e amigo de infância de Fikile, também se envolve com Puleng. Ao longo da temporada, vive uma transformação marcante: ao lado dela, encontra coragem para investir em sua música e, principalmente, confrontar o pai e buscar reconhecimento pelo que realmente é.

Infelizmente, personagens com potencial para arcos relevantes acabam sendo deixados de lado. É o caso de Chris Ackerman (Arno Greeff), nadador pansexual do grupo de amigos de Fikile, que enfrenta dilemas ao se apaixonar simultaneamente por um homem e uma mulher. Enquanto tenta entender como equilibrar essa dinâmica afetiva, Chris também ocupa um lugar de destaque nas intrigas da escola, sendo um dos grandes aliados de Fikile nas brigas contra Puleng. O personagem tem força para explorar temas representativos com profundidade, mas acaba sendo reduzido a um papel dúbio — ao mesmo tempo cúmplice maldoso e símbolo de popularidade tóxica — sem que seu conflito interno seja devidamente desenvolvido. O roteiro desperdiça essa trama com um tratamento superficial. Outra figura escanteada é Reece van Rensburg (Greteli Fincham), inicialmente apresentada como a garota fútil do grupo: maconheira, envolvida com tráfico de drogas e passando por problemas financeiros. Apesar de carregar um pano de fundo promissor, Reece se torna quase um acessório da trama, sem espaço real para crescer ou interferir de forma significativa nos eventos principais. Seu arco parece sempre à beira de se tornar marcante, mas é constantemente colocado à margem da narrativa.

Em sua primeira temporada, Sangue e Água consegue equilibrar o suspense investigativo com os dramas típicos da adolescência, construindo uma narrativa instigante e envolvente. A série, em seus seis episódios com cerca de 45 minutos, acerta ao tratar de temas como identidade, privilégios, desigualdade e relações familiares sem perder o ritmo ou subestimar seu público. Ainda que alguns personagens promissores sejam subaproveitados pelo roteiro, o núcleo central é forte o suficiente para manter o interesse e criar expectativa para os desdobramentos futuros. Um dos aspectos mais notáveis é a naturalidade com que a produção apresenta um elenco majoritariamente negro sem que o racismo seja o foco principal da história. Em vez disso, Sangue e Água opta por mostrar personagens pretos em posições diversas — populares, vulneráveis, poderosos, falhos, protagonistas de suas próprias histórias — algo ainda raro em produções do gênero. A representatividade aqui não vem pela dor, mas pela existência plural.

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

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