Nota
“La la la-la la la
Cante uma canção
La la la-la la la
Smurf de montão”
O universo dos Smurfs retorna às telonas com uma nova roupagem em Smurfs (2025), apostando em uma aventura colorida que busca equilibrar nostalgia com um toque de modernização. A trama acompanha a Vila dos Smurfs enfrentando uma nova ameaça mágica, enquanto seus personagens clássicos — como Smurfette e Papai Smurf — ganham pequenos arcos individuais que reforçam mensagens sobre identidade, pertencimento e trabalho em equipe. A narrativa é simples e voltada majoritariamente para o público infantil, mas tenta dialogar também com os adultos que cresceram com esses personagens, mesmo que em muitos momentos se apoie demais no carisma e na estética ao invés de aprofundar os conflitos. O grupo protagonista ganha o reforço de um personagem novo, criado para esse filme, Sem Nome, um Smurf que desde que nasceu nunca encontrou sua habilidade, e consequentemente seu nome, mas que acaba sendo o responsável por iniciar a mudança de status quo que gera toda a trama do filme.

Visualmente, Smurfs acerta em cheio. A animação é vibrante, repleta de texturas suaves e cenários encantadores que reforçam o tom mágico da Vila e das regiões exploradas ao longo da jornada. A direção de arte investe em cores saturadas e movimentos fluidos que tornam a experiência visual cativante para os olhos de qualquer faixa etária. Em especial, o design do personagem Sem Nome se destaca por manter a simplicidade estética dos demais Smurfs, mas com pequenas diferenças sutis — como um tom de azul levemente mais claro e expressões constantemente reflexivas — que ajudam a reforçar seu conflito interno sem verbalizações exageradas. Ainda assim, apesar do cuidado técnico evidente, algumas escolhas visuais mais ousadas acabam sendo subaproveitadas, especialmente em cenas de ação que poderiam ter explorado melhor os elementos mágicos do universo Smurf. Outro ponto positivo é o momento em que eles chegam ao mundo real, onde alguns elementos live-action são mantidos sem comprometer o visual dos Smurfs — ou seja, temos 3D animado interagindo com o real sem causar estranhamento, numa escolha arriscada e gratificante.
Narrativamente, Smurfs adota uma estrutura simples, mas eficaz. O roteiro não reinventa fórmulas, mas entende bem o público para o qual está se dirigindo. A jornada de Sem Nome é construída como uma fábula sobre autoconhecimento e pertencimento, e mesmo que os arcos paralelos sejam menos aprofundados, eles funcionam como apoio emocional e cômico ao núcleo principal. O equilíbrio entre humor e emoção é bem dosado, com piadas que funcionam tanto para crianças quanto para adultos, sem depender excessivamente de referências externas ou do humor autoconsciente típico de muitas animações recentes. Ainda que a previsibilidade seja um fator presente — principalmente para quem já conhece o estilo das histórias dos Smurfs — o roteiro compensa com uma progressão bem ritmada e resoluções que, embora fáceis, são coerentes com a lógica interna daquele universo. A boa recepção também se deve às vozes bem escaladas: Rihanna traz um tom carismático e maduro à Smurfette, enquanto James Corden injeta energia e vulnerabilidade ao Smurf Sem Nome, tornando ambos ainda mais cativantes.

Smurfs marca uma reinicialização bem-vinda e necessária para a franquia nos cinemas. Ao apostar totalmente na animação, o filme encontra liberdade criativa para construir um universo coeso, colorido e acessível a novas gerações. Mesmo com uma história simples e um clímax que poderia ser mais ousado, o longa tem consciência de sua proposta e entrega uma aventura envolvente, com ritmo fluido, personagens cativantes e um discurso que valoriza as diferenças e o processo de se encontrar. É um entretenimento eficiente, que pode não ser memorável para todos, mas que cumpre com competência a missão de divertir — e emocionar — através de uma canção que muitos já esqueceram como cantar, mas que aqui volta a ecoar com um novo frescor. E para quem fica até o fim, há ainda uma cena pós-créditos que deixa um gancho promissor para uma possível sequência.
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.