Nota
Com grande maestria e delicadeza, a diretora Anna Muylaert conduz e dá voz à potente Gal, uma catadora de recicláveis mãe de duas crianças que, diante de uma realidade insustentável, é forçada a abandonar o lar para escapar de uma vida marcada pela violência doméstica praticada por seu marido, Leonardo, interpretado com intensidade por Seu Jorge.

O filme estrelado por Shirley Cruz, que conta ainda com Seu Jorge, Katiuscia Canoro, Rihanna Barbosa e Luedji Luna no elenco, teve sua estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Berlim, integrando a seleção oficial na mostra Berlinale Special. No longa, acompanhamos a jornada que Gal propõe aos filhos: uma aventura repleta de fantasia, usada como artifício para lidar com a dor e proteger as crianças da gravidade da situação. Ao transformar a fuga em uma espécie de brincadeira, a personagem oferece à infância deles a chance de continuar sendo infância ainda que em ruínas.
A Melhor Mãe do Mundo é um filme que abraça o afeto como força propulsora e a imaginação como refúgio. Com sensibilidade e humanidade, trata temas densos como a violência doméstica, o medo e a reconstrução dos vínculos familiares. Gal não é retratada como uma heroína idealizada, mas como uma mulher real falha, sensível e corajosa que encontra nos gestos cotidianos e nas pequenas invenções a força para seguir. Seus filhos, cúmplices involuntários dessa travessia, oscilam entre a ingenuidade e uma precoce maturidade, compondo um retrato comovente da infância em tempos de crise.

A fotografia de tons quentes e a trilha sonora minimalista contribuem para o tom intimista da narrativa, enquanto os silêncios entre os diálogos muitas vezes dizem mais que as próprias palavras. Com isso, Muylaert reafirma seu lugar entre os grandes nomes do cinema brasileiro contemporâneo, oferecendo um olhar delicado e profundo sobre mulheres que, invisíveis aos olhos da sociedade, reinventam o amor em meio aos escombros da dor.
Ronaldo Santos
Professor, escritor, tradutor, blogueiro, entusiasta em tecnologia, nerd e pseudo intelectual.