Nota
Baseado na história real que inspirou o consagrado O Exorcista, o filme mergulha nos eventos perturbadores ocorridos em Iowa, EUA, em 1928. A trama acompanha o exorcismo de Emma Schmidt, um dos casos mais bem documentados da história da Igreja, e usa closes intensos para transformar o espectador em uma verdadeira testemunha do horror. No centro da narrativa estão dois padres: Theophilus Riesinger, vivido por Al Pacino, e Joseph Steiger, interpretado por Dan Stevens. Apesar de carregarem experiências e conflitos pessoais distintos, ambos precisam unir forças em uma corrida contra o tempo para salvar a jovem Emma, interpretada por Abigail Cowen. A relação entre os dois religiosos se torna tão importante quanto o próprio ritual de exorcismo, revelando tensões, fé abalada e dilemas morais diante do inexplicável.

Com direção de David Midell, que também assina o roteiro ao lado de Enrico Natale, o longa busca equilíbrio entre o suspense psicológico e a fidelidade aos registros históricos do caso, oferecendo ao público uma experiência visceral, densa e angustiante. Mais do que um simples filme de terror, esta produção propõe um mergulho na fé, no medo e na luta desesperada contra o mal quando a ciência já não oferece respostas e tudo o que resta é acreditar… ou fugir.
Apesar da premissa ser fundamentada em uma história real, a narrativa peca ao não aprofundar os personagens principais, deixando uma lacuna emocional que compromete a conexão do público com a trama. As motivações internas dos padres, especialmente de Theophilus Riesinger, são abordadas de forma superficial, tornando difícil compreender os conflitos que poderiam enriquecer o drama. Emma Schmidt, embora central à história, é retratada mais como um instrumento do terror do que como uma figura humana complexa e atormentada. A direção de Midell acerta ao criar uma atmosfera opressiva e claustrofóbica, mas falha ao não equilibrar o horror com o desenvolvimento psicológico dos personagens.

Há momentos em que a tensão é construída com maestria, mas que perdem força por não estarem ancorados em vínculos mais profundos entre os protagonistas. Mesmo com atuações sólidas, em especial a de Al Pacino, que imprime autoridade e fragilidade em doses medidas o roteiro parece hesitar entre a fidelidade ao caso real e a liberdade criativa, resultando em uma narrativa que, embora impactante em seus aspectos visuais, não atinge todo o potencial emocional que o tema permitiria. Ainda assim, O Ritual consegue provocar reflexões sobre fé, dúvida e o limite entre razão e crença, tornando-se uma experiência interessante para os fãs do gênero mesmo que fique a sensação de que poderia ter ido mais longe.
Ronaldo Santos
Professor, escritor, tradutor, blogueiro, entusiasta em tecnologia, nerd e pseudo intelectual.