Nota
“Welcome to the light side, light side (welcome to the night side, night side)
It’s better on the bright side, bright side (the we’ll be takin’ flight side, flight side)
You know, we’re the most unforgettable”
Todos conhecem a história de Seabrooke, a cidade onde uma Pedra da Lua caiu há alguns anos e desencadeou o surgimento de zumbis, lobisomens e alienígenas — que hoje convivem pacificamente com os humanos. O que poucos sabem, no entanto, é que outra Pedra da Lua também caiu nos arredores do Monte Rayburn, dando origem a duas novas espécies de monstros. Foi ali que surgiu a lendária Fruta de Sangue, um fruto vital para a existência dessas criaturas, cuja escassez acabou provocando uma disputa entre as duas raças. De um lado, Shadyside: uma cidade envolta em noite eterna, habitada por Vampiros com o dom de manipular o vento e governada pela misteriosa Vampira Anciã. Do outro, Sunnyside: uma cidade banhada por luz constante, lar dos Vagantes da Luz — seres que controlam fogo sob a liderança do severo Comandante Bright. Agora formados em Seabrook High, Zed, Addison, Eliza e Willa seguem suas vidas universitárias em Mountain College, mas tudo muda quando uma viagem de verão dá errado e o grupo acaba parando no Monte Rayburn justamente durante um momento crítico: com o estoque da Fruta de Sangue prestes a acabar, vampiros e vagantes entram em confronto direto pelos últimos frutos do pomar. No meio desse conflito, Nova, filha de Bright, começa a ter visões com um garoto desconhecido — sem saber que ele é Victor, sobrinho da Anciã, que por sua vez também tem sonhado com uma garota que nunca viu… sem imaginar que é Nova.

Depois do final redondinho de Z-O-M-B-I-E-S 3, sem qualquer gancho para continuações, a Disney provou que dificilmente será capaz de abandonar uma franquia — mesmo quando ela já encontrou seu desfecho ideal. Em 22 de novembro de 2023, pouco mais de um ano após a estreia do terceiro filme, foi confirmado um quarto longa para a saga, novamente dirigido por Paul Hoen, com roteiro de David Light e Joseph Raso, e os protagonistas Meg Donnelly e Milo Manheim de volta aos papéis centrais. À primeira vista, a premissa parece uma repetição do primeiro filme, o que já acende um alerta em quem acompanha a franquia. No entanto, o reforço de Josh Cagan (Kim Possible) no time de roteiristas talvez seja o segredo por trás da renovação da dinâmica, que já estava claramente desgastada. Embora o filme se baseie no clichê das “tribos rivais que precisam se unir por um bem maior”, ele consegue superar as expectativas. Donnelly e Manheim estão visivelmente mais confortáveis em cena — o que é esperado, já que o longa funciona quase como uma passagem de bastão —, mas peca ao escantear personagens marcantes como Eliza (Kylee Russell) e Willa (Chandler Kinney), que acabam com participações apagadas em um roteiro mais preocupado em amadurecer a trajetória de Zed e Addison, ao mesmo tempo em que introduz e desenvolve Nova e Victor. Dito isso, é necessário um pequeno desabafo: a produção poderia tranquilamente ter começado em 5:30, quando Nova e Victor são apresentados, resumindo toda a construção até a viagem de verão na abertura animada. Isso pouparia o público de “Legends In The Making”, uma música de introdução genérica demais, que mais parece um single descartado de High School Musical do que algo digno da identidade de Z-O-M-B-I-E-S. O problema se agrava quando somado ao início morno do longa.
Já que estamos falando das músicas, é quando “The Place To Be” começa que realmente sentimos a vibe do filme — essa sim é a verdadeira música de abertura, trazendo o espírito dos Vagantes e dos Vampiros e dando um gostinho do que devemos esperar. “Don’t Mess With Us” dá uma refrescada na trama com a clássica energia de uma música de embate, com direito a um bem-vindo destaque para os solos de Julian Lerner (Ray) e Swayam Bhatia (Vera). A história de Nova (Freya Skye) e Victor (Malachi Barton) é construída aos poucos, diferente da paixão abrupta entre Zed e Addison, o que torna “Dream Come True” o ápice dessa trajetória. Dream Come True é para Victor e Nova o que “Someday” foi para Zed e Addison. “Kerosene” é mais uma daquelas músicas anticlimáticas e descartáveis, que, apesar de essencial para a narrativa, poderia ter sido substituída por algo mais marcante — talvez “Together As One”, música dos créditos do filme mas que se encaixaria melhor na cena da descoberta da antena. “My Own Way” surge como o momento “If Only” de Skye, mas infelizmente carece de intensidade e emoção. “Possible” é uma passagem de bastão convincente, que casa com a voz do quarteto e agrada. Someday retorna como uma doce lembrança, embora talvez existissem formas mais impactantes de executar o momento e alcançar a emoção que ele pedia. Por fim, “Show The World” funciona como uma música de finalização, mas perde parte do sentido quando temos um epílogo protagonizado por Manheim e Donnelly em um reprise de “Ain’t No Doubt About It”.

Lançado nos Estados Unidos em 10 de julho de 2025 pelo Disney Channel, e mundialmente no dia seguinte no Disney+, Z-O-M-B-I-E-S 4 nasceu com a difícil missão de dar um novo começo a uma saga já desgastada e oficialmente encerrada — e até consegue fugir do padrão “mais uma raça” para construir uma história plausível, ainda que fraca. O roteiro apresenta boas ideias e renova o espírito da franquia, mas várias escolhas criativas e as amarras do universo estabelecido acabam comprometendo o resultado. Seguindo o caminho oposto de A Ascensão de Copas, quarto filme da franquia Descendentes, Z-O-M-B-I-E-S 4 aposta em um novo arco com protagonistas inéditos, mas esquece que é possível expandir a mitologia sem depender dos protagonistas do original. Talvez o filme funcionasse melhor se tivesse Eliza e Willa como pontos de conexão, permitindo que suas jornadas tivessem um desfecho digno enquanto introduziam dois novos protagonistas para os futuros filmes — que, ao que tudo indica, devem acontecer após o gancho deixado. Existe um certo charme em assistir aos filmes leves, previsíveis e questionáveis do Disney Channel. Parte disso se deve aos personagens carismáticos e às músicas cativantes — e é justamente nesse ponto que Z-O-M-B-I-E-S 4 mais tropeça. As canções, em sua maioria, são esquecíveis. Apenas Place to Be e Don’t Mess With Us realmente se destacam e têm alguma chance de entrar nas playlists pós-filme dos fãs da Disney. Isso levanta a dúvida: o que aconteceu com George S. Clinton, responsável pelos maiores hits da franquia? E por que o trabalho de Tom Howe — compositor experiente, com mais de cem filmes no currículo — soa tão aquém nesta produção?
Z-O-M-B-I-E-S 4 poderia ter sido um recomeço divertido para uma franquia que já garantiu sua fanbase. Mas, por não ousar o suficiente, termina sendo apenas um título morno, que não compromete… mas também não empolga. Pior ainda é lembrar que o terceiro filme já havia deixado um gancho para um spin-off estrelado por Trevor Tordjman (Bucky), em uma missão galáctica em busca de líderes de torcida — mais uma ideia engavetada que talvez oferecesse o fôlego necessário antes de um recomeço tão arriscado.
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.