Nota
“Pitaya! É isso que eu quero!”
Elder é um motorista de aplicativo que enfrenta o cotidiano duro e caótico do Rio de Janeiro. Morando em uma comunidade carente ao lado da esposa, a professora Daiane, ele se prepara para a chegada do primeiro filho do casal, Davi. Na reta final da gravidez, Daiane pede que Elder vá ao mercado comprar uma fruta específica, mas o simples pedido doméstico rapidamente se transforma em tragédia. Um tiroteio eclode nas proximidades, e Elder acaba sendo atingido por uma bala perdida. Com a ajuda de outras pessoas que também ficam presas dentro do mercado, ele precisa lutar para sobreviver, enquanto, em casa, Daiane entra em trabalho de parto, cercada pela tensão de uma cidade sitiada pela violência — tendo ao seu lado apenas o apoio de sua irmã mais nova.

Vítimas do Dia é uma experiência audiovisual que aposta no exagero, no bizarro e no escracho como principais ferramentas para provocar o público. Dirigido por Bruno Safadi, o filme se constrói como uma sátira tropical exagerada da realidade, com cores vibrantes, atuações propositalmente teatrais e situações que oscilam entre o absurdo e o trágico. Dentro do supermercado onde boa parte da trama se passa, os personagens enclausurados não estão ali por acaso: são convenientemente vítimas da sociedade, cada um representando dilemas distintos — do racismo estrutural à precarização do trabalho —, escolhidos a dedo para reforçar os clichês sociais que alimentam o drama do roteiro. Ao misturar esses perfis com uma linguagem quase alegórica, o longa constrói um microcosmo do Brasil urbano e desigual, onde a crítica emerge tanto pela caricatura quanto pelo desconforto.
Amaury Lorenzo (Elder), Jéssica Ellen (Daiane) e Belize Pombal (Paula) formam o eixo central que sustenta a trama emocional de Vítimas do Dia. De um lado, acompanhamos o motorista desesperado, atormentado pelo medo de nunca conhecer o próprio filho, sendo acolhido por Paula, mulher marcada pela violência doméstica que aprendeu a se libertar do ciclo de abusos e hoje luta para manter sua autonomia. Do outro, na casa, Daiane entra em trabalho de parto ao ver o vídeo do companheiro baleado circulando nas redes, sendo forçada a abandonar o papel de irmã mais velha, responsável e controladora, para se entregar aos cuidados da caçula desempregada, a quem vive repreendendo, mas que agora precisa amadurecer às pressas. A essa equação já carregada de tensão, soma-se Gleice — vivida com precisão por Grace Passô —, policial que se refugia na casa após perder os colegas de farda, sentindo-se encurralada entre o dever de se manter escondida e o impulso de proteger a frágil professora prestes a dar à luz.
Mas o panteão do enredo não para por aí. Aretha Sadick entrega força e sutileza como Sinára, a funcionária trans do supermercado que reprime seus sentimentos por um colega de trabalho, tentando manter a discrição em meio ao caos. Marcos de Andrade dá vida a Pio, um flanelinha que limpa para-brisas no sinal e entra em um surto ensandecido quando se vê encurralado pelo tiroteio. Já Pablo Sanábio interpreta o locutor alcoólatra do supermercado, figura inicialmente caricata que surpreende o público ao revelar, em determinado momento, uma trágica história de fundo que nos lembra o quanto é perigoso julgar alguém sem conhecer o que ela carrega. No entanto, o roteiro por vezes perde a mão ao reunir em um único espaço tantos personagens que representam estereótipos de problemáticas sociais, forçando encontros e revelações que soam mais convenientes do que orgânicas — como se o drama precisasse ser sempre elevado ao extremo para justificar sua existência.

Vítimas do Dia acerta ao levantar temas urgentes e dar espaço para personagens que geralmente estão à margem do cinema comercial, mas escorrega feio ao transformar cada um deles em um símbolo dramático exacerbado de alguma dor social. O roteiro, que começa com vigor, aos poucos se rende ao acúmulo de traumas e coincidências, esvaziando o realismo em troca de um drama forçado. Mesmo com atuações sólidas e alguns momentos de tensão bem conduzidos, o filme tropeça em sua própria ambição de representar o todo. E o que poderia ser um retrato cru e impactante da nossa realidade termina se rendendo a um desfecho quase de conto de fadas — uma saída apressada, repleta de inconsistências, que tenta ser bonita, mas acaba destoando do tom visceral proposto até ali. Uma história tão carregada de potência merecia um final mais épico, ou ao menos mais honesto com o caos que construiu. No fim, sobra a sensação de que o realismo da proposta se perdeu no peso das alegorias e da densidade artificial.
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.