Crítica | O Escaravelho do Diabo

Nota
2.5

Adaptação do clássico juvenil de Lúcia Machado de Almeida, O Escaravelho do Diabo (2016), dirigido por Carlo Milani, tenta transportar para o cinema a aura de mistério e tensão que marcou gerações de leitores brasileiros. A trama acompanha uma pequena cidade atormentada por uma série de assassinatos macabros, todos conectados por um padrão peculiar: as vítimas são sempre ruivas e recebem um escaravelho pouco antes de serem mortas. Essa sequência de crimes cria uma atmosfera de suspense promissora, que poderia ter resultado em um thriller envolvente e inesquecível. O fio condutor da investigação recai sobre Alberto (Thiago Rosseti), o irmão mais novo de uma das vítimas, que tenta entender quem está por trás da onda de assassinatos e qual o significado desses estranhos insetos deixados como assinatura do assassino. Com uma história que mistura elementos de mistério clássico e tensão psicológica, o filme parecia ter todos os ingredientes para honrar o material original e cativar o público, mas suas escolhas narrativas acabam comprometendo a execução.

O maior problema está justamente na transformação de Alberto. No livro, ele é um estudante de medicina envolvido na busca pela verdade e tinha um papel ativo e maduro como investigador, o que dava ao enredo um peso mais realista e dinâmico. No filme, no entanto, ele foi transformado em uma criança, e essa decisão enfraquece toda a narrativa. A investigação, que antes tinha contornos verossímeis e mostrava o protagonista agindo como alguém capaz de lidar com as pistas e as situações de perigo, passa a depender de improvisos pouco convincentes. A mudança também compromete a tensão: certas cenas que deveriam transmitir urgência e medo acabam soando quase ingênuas, como se o roteiro não soubesse equilibrar a inocência infantil com a gravidade dos crimes. Ao infantilizar o protagonista, o filme perde parte da força emocional que poderia ter, diminuindo a densidade do suspense e afastando-se do tom que tornou o livro tão marcante para os leitores.

Essa alteração estrutural torna inevitável a comparação com a obra original – e, infelizmente, o filme sai perdendo. O livro de Lúcia Machado de Almeida equilibra suspense, investigação e momentos de tensão de forma instigante, apresentando uma narrativa que não subestima seu público e que, apesar de voltada para jovens, mantém uma atmosfera de perigo palpável. Já a adaptação parece insegura: hesita entre ser um suspense infantojuvenil, mais leve e acessível, ou um mistério mais sombrio e adulto. Essa indecisão resulta em uma trama sem identidade clara, que oscila entre cenas de mistério que funcionam e outras que parecem saídas de um filme infantil descompromissado. Ao tentar agradar a todos, o filme não aprofunda nenhuma de suas propostas. Essa falta de foco é um dos fatores que faz com que até os momentos de maior tensão percam o impacto e se dissolvam rapidamente, em vez de criar aquele suspense duradouro que o público esperava.

Nem tudo, porém, é falha. Visualmente, a produção entrega alguns acertos que merecem reconhecimento. A direção de arte cria uma ambientação interessante para a pequena cidade, explorando locações e cenários que contribuem para a sensação de isolamento e estranheza. A fotografia, por sua vez, consegue imprimir uma atmosfera sombria em determinados momentos, reforçando a ideia de que há algo de perturbador escondido sob a aparente tranquilidade daquele lugar. No entanto, nem a estética salva o filme do peso de suas escolhas narrativas equivocadas: a trama perde ritmo, o suspense nunca atinge seu auge e a experiência geral se torna morna, tanto para os fãs do livro quanto para quem chega sem qualquer referência. No fim, O Escaravelho do Diabo falha em capturar a essência do clássico literário, deixando a sensação de que a história tinha potencial para algo muito maior.

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

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