Nota
A trama de Os Caras Malvados 2 se passa cinco anos após os eventos do primeiro filme, quando Sr. Lobo e sua trupe infame de foras-da-lei decidem abandonar o crime e se tornar bons cidadãos, precisando lidar com as consequências dessa escolha. A tarefa se mostra mais difícil do que imaginavam, pois conquistar a confiança e a aceitação das pessoas exige esforço constante. O filme inicia com a ação de um último roubo e, a partir daí, segue pelo processo de redenção e pela dura realidade de recomeçar a vida com a fama que carregam. Tudo muda quando um novo esquadrão de bandidos os força a participar de um serviço perigoso, levando-os a interromper a aposentadoria para realizar o que dizem ser seu último trabalho.

Logo conhecemos esse novo grupo de ladrões — desta vez, formado apenas por mulheres — talvez como forma de compensar a pouca presença feminina no primeiro longa. Algumas subnarrativas deixadas em aberto anteriormente são aqui resolvidas, enquanto novas tramas surgem, dando a entender que uma terceira parte pode estar a caminho. Esse novo grupo é tão talentoso quanto os próprios Caras Malvados e, ao imitá-los, faz com que a população acredite que os protagonistas voltaram à ativa. Para provar sua inocência, eles se unem à chefe de polícia para capturar esse “gatuno fantasma”. No entanto, descobrem no meio da investigação que Cobra está envolvido em tudo. A narrativa, então, transita da investigação para o assalto, depois para a ficção científica e até para uma aventura no espaço, abraçando diversos clichês e referências.
O longa aborda até questões mais adultas para sua proposta, como arrependimento, reinserção de ex-criminosos na sociedade, respeito, confiança, medo e até dependência emocional — tudo na medida certa. Há momentos de humor, outros mais dramáticos e sequências repletas de ação. Se no primeiro filme já havia referências a clássicos de ação, aqui o leque se expande para o universo dos espiões e da ficção científica, sempre com o toque característico de absurdos típicos da DreamWorks, tanto nas piadas quanto nas soluções visuais.
A direção de Pierre Perifel mantém sua marca registrada, garantindo que cada personagem tenha seu apelo emocional específico e um carisma próprio. Na dublagem, Mckeidy Lisita — nosso eterno Salsicha de Scooby-Doo — retorna como a voz do Lobo, trazendo nuances mais cruas, especialmente por conta do romance proibido entre ele e a Pata Escarlate, agora governadora, cujo novo cargo torna a relação ainda mais complicada.

A produção se destaca por retratar o tema de segundas chances e as dificuldades de recomeçar, levantando a reflexão: criminosos podem mudar? Foi apenas um problema social? Essa abordagem é feita de forma leve, atingindo tanto o público infantil quanto o adulto. Os arquétipos de personagem geram identificação, seja pela história ou pelo carisma, reforçando o já conhecido tema de trabalho em equipe com as diferenças — algo que a DreamWorks já explora bem em Kung Fu Panda.
Há, sim, novos personagens claramente pensados para merchandising, alguns com pouca relevância para a trama. Ainda assim, a narrativa se mantém equilibrada e envolvente, prendendo do início ao fim. No aspecto técnico, há referências visuais a jogos, uso de animação de partículas mais desenvolvida e a fusão entre 2D e 3D que dá o aspecto de páginas de quadrinhos. A iluminação também merece destaque, trazendo atmosfera própria para cada personagem ou situação. Apesar de falhar um pouco na previsibilidade, Os Caras Malvados 2 acaba sendo mais envolvente e satisfatório que o primeiro.
Lucas Vilanova
Formado em cinema de animação, faço ilustrações, sou gamer, viciado em reality shows, cultura pop, séries e cinema, principalmente terror/horror