Nota
Existem filmes que chegam como um reencontro. Você se senta na poltrona, as luzes apagam e, de repente, é como se estivesse revendo amigos que não via há anos. Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda é exatamente isso: familiar, acolhedor e com aquela pitada de maluquice que faz tudo valer a pena. É o tipo de comédia que mistura nostalgia com novidades, garantindo boas risadas e, por que não, um quentinho no coração.

Sob o comando de Nisha Ganatra, a história retoma a vida de Anna (Lindsay Lohan) e Tess (Jamie Lee Curtis) anos depois do caos da primeira troca de corpos. Só que, desta vez, a confusão é dobrada. Ou melhor, multiplicada. Agora, além das duas, a filha de Anna, Harper (Julia Butters), e a enteada Lily (Sophia Hammons) também entram na dança. O resultado é quatro vidas embaralhadas, temperadas por conflitos geracionais, segredos de família e situações absurdamente engraçadas. Essa expansão da trama abre espaço para que o roteiro brinque com novas combinações de comportamento e personalidade, gerando momentos inesperados e bem-humorados.
Jamie Lee Curtis é mais uma vez um show à parte. Sua Tess, agora avó e terapeuta, continua com aquele talento único para transformar qualquer gesto em comédia. Ela exagera quando precisa, segura o tom nos momentos certos e prova que, mesmo depois de tantos anos, a personagem ainda tem muito a oferecer. Lindsay Lohan aparece mais madura, com um carisma diferente daquele que conhecemos no início dos anos 2000. Ela segura a emoção, entrega boas reações e serve como um contraponto mais centrado para o caos de Curtis, criando um equilíbrio interessante entre energia e serenidade.
O filme acerta ao balancear o passado e o presente. Quem assistiu ao original vai se divertir com as referências, como a banda Pink Slip e rostos conhecidos que aparecem de surpresa, mas quem está chegando agora também vai encontrar uma história acessível e atual. As questões tratadas vão muito além do simples “eu não entendo a vida do outro”. São dilemas sobre formar uma nova família, conviver com diferenças, aprender a ceder e sobreviver no mundo hiperconectado das redes sociais, onde qualquer detalhe pode virar assunto público.

Julia Butters e Sophia Hammons são um achado. Elas não caem na armadilha de apenas imitar as outras personagens que estão interpretando. Pelo contrário, trazem energia própria para cada momento, construindo personalidades críveis mesmo no meio da bagunça. Enquanto isso, o elenco de apoio se diverte. Manny Jacinto aparece com um charme quase despretensioso, Vanessa Bayer rouba a cena como uma cartomante deliciosamente excêntrica e ainda há algumas participações que arrancam aquele sorriso cúmplice de quem lembra do primeiro filme.
Visualmente, tudo é pensado para manter o astral lá no alto. O figurino é vibrante, a direção de arte aposta em cenários coloridos e movimentados e a fotografia dá à comédia um brilho quase de conto moderno. A trilha sonora é um acerto atrás do outro, misturando sucessos atuais com lembranças diretas do filme de 2003. A nova versão de “Take Me Away” pela banda fictícia Pink Slip é um daqueles momentos que fisgam a plateia, convidando o público a cantar junto, seja pela nostalgia ou pelo clima contagiante.
Claro que nem tudo é perfeito. O último ato perde um pouco do fôlego, com algumas cenas que poderiam ser mais ágeis. Com tanta gente em cena, é inevitável que alguns personagens fiquem mais apagados do que deveriam. Talvez, com alguns minutos a mais, fosse possível desenvolver melhor certos relacionamentos ou dar mais espaço para interações que ficam apenas insinuadas. Ainda assim, a energia coletiva e o espírito de diversão mantêm o público envolvido até o fim.

No fim das contas, Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda é como aquele almoço de família que começa organizado e termina com todo mundo falando ao mesmo tempo, rindo alto e contando histórias que talvez nem sejam verdade. É divertido, é caótico, é cheio de carinho. Quando os créditos sobem, a sensação é de que, se inventarem mais uma troca de corpos daqui a alguns anos, estaremos prontos para embarcar de novo. E, se for com o mesmo senso de humor e afeto, que tragam quantas sextas-feiras forem necessárias.
Victor Freitas
Pernambucano, jogador de RPG, pesquisador nas áreas de gênero, diversidade e bioética, comentarista no X, fã incontestável de Junji Ito e Naoki Urasawa. Ah, também sou advogado e me arrisco como crítico nas horas vagas.