Nota
Os Enforcados, dirigido por Fernando Coimbra, começa dando indícios de uma relevante crítica social, mas da metade pro final acaba apelando pelo non sense. O ousado filme de suspense, tem um enredo que, mesmo começando previsível, mostra bastante imprevisibilidade no decorrer da narrativa, o que prende o espectador do começo ao fim. Os Enforcados acompanha o casal: Regina (Leandra Leal) e Valerio (Irandhir Santos), que viviam uma vida de classe média alta, às custas dos esquemas criminosos da família do homem, até o seu pai vir a morrer. Assim, eles se deparam com um mar de despesas, dívidas e os negócios criminosos da família a serem continuados. Como uma tentativa de sair dessa realidade, eles tomam uma atitude extremamente brusca e arriscada. Mas a obra, mesmo com seu toque de originalidade, parece se perder no meio do caminho.

A narrativa de Os Enforcados conta com personagens com personalidades bem fortes. É importante mencionar as gloriosas atuações de Leandra Leal e Irandhir Santos, que claramente deram a vida por seus personagens e sustentam a obra, apesar do roteiro perdido. O casal protagonista, Regina e Valério, têm uma dinâmica bastante intensa, que realmente leva o espectador a compreender de que maneira funciona o relacionamento entre eles. Leandra Leal interpreta uma personagem que possui um desenvolvimento tanto interessante como de certa forma perdido. Regina é uma protagonista que em diversas cenas acaba por funcionar como um alívio cômico, muitas vezes colocada em estereótipos ultrapassados para um filme de 2025.
A personagem possui comportamentos descontrolados, é manipulada pelo seu próprio marido, e durante a narrativa ela é posta como “louca” e “inferior”. Um fator que contribui para sustentar essas perspectivas, é que Regina é estuprada por Valério, e esse assunto em nenhum momento vem à tona na narrativa. É como se a violação acontecesse e fosse empurrado por debaixo dos panos, o que corresponde praticamente a uma banalização do abuso. O espectador, então, que começa a tentar torcer pela Regina, acaba se decepcionando com o decorrer da narrativa, quando esta começa a tomar atitudes totalmente sem nexo, o que esvazia para além do desenvolvimento dos personagens, a própria narrativa em si.

Assim, para um filme que começa aparentando ter um roteiro de suspense inteligente, que vai trazer uma crítica social de forma ácida e bem humorada, Os Enforcados acaba por se tornar um grande desastre. A sensação que passa é que realmente o roteirista se perdeu da metade pro final, e criou essas cenas finais de desfecho enquanto uma forma de apenas “chocar” o público. Esse choque, no entanto, não funciona bem. É bastante triste perceber que um filme de suspense com tanto potencial de autenticidade e qualidade, com elenco fortíssimo consegue se afastar totalmente do propósito inicial, empilhando uma sequência de cenas absurdas e questionáveis. Os Enforcados, então, se torna uma obra que para além de esvaziada, é claramente problemática.