Nota
Em meio a polarização política que se deu no Brasil após o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, a diretora Petra Costa acompanha a ascensão do eventual presidente da república do Brasil em 2019, Jair Messias Bolsonaro, a partir da sua aproximação à religião evangélica. Acompanhando as movimentações pela ótica do líder religioso, o pastor Silas Malafaia, a diretora traça a linha do tempo mostrando a aproximação de Bolsonaro ao evangelismo como uma estratégia política de dominação de massas, orquestrada juntamente com o pastor Malafaia, com depoimentos do mesmo que corroboram com a narrativa. Apocalipse nos Trópicos é o mais novo documentário da diretora Petra Costa, que trás uma coletânea de registros históricos para os acontecimentos da história recente da política brasileira.

Após o seu aclamado documentário, Democracia em Vertigem (2019), que trouxe para Petra Costa inclusive uma indicação ao Oscar de Melhor Documentário, a diretora traz uma continuação dos eventos históricos do seu primeiro documentário em Apocalipse nos Trópicos. Em seu novo projeto, Petra Costa, segue narrando os acontecimentos após a prisão do então ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas também fazendo um apanhado prévio sobre alguns acontecimentos que não foram explorados previamente em seu documentário anterior, de 2019. O grande diferencial de Apocalipse nos Trópicos se dá justamente por trazer o outro lado do espectro político no formato documental, já que em 2019, ela acompanhou e documentou de perto Lula, Dilma Rousseff e a cúpula do Partido dos Trabalhadores, e agora, mesmo com limitações, ela documenta o outro lado. Fica claro que o foco em explorar a religião se deu por não conseguir filmagens tão “íntimas” da família Bolsonaro em si, já que a família do pastor Silas Malafaia se mostra mais acessível e receptivo para a diretora, mesmo entrando em debates ao longo do documentário, o pastor parece atender a equipe de Petra de forma cordial.
O documentário também traz uma narrativa interessante, que se propõe a explicar os primórdios do evangelismo no Brasil, trazendo inclusive alguns registros do início da carreira do pastor Silas Malafaia, que é um dos grandes nomes na popularização midiática da religião, mas sem tanto aprofundamento, para focar mais nos depoimentos de alguns evangélicos do porque votar em Bolsonaro, e de alguns pastores que são repreendidos por serem contra o Bolsonarismo, mas que também é pouquíssimo aprofundado, se tornando quase como depoimentos soltos, por corroborar pouco na narrativa principal, já que um aprofundamento maior dos temas principais ou de um dos tipos de depoimento trariam mais embasamento para toda a narrativa construída.

Outra linha narrativa audaciosa que a diretora se promete a abordar é quando ela inicia o tópico sobre O Fantasma do Comunismo, que ela aborda de fato alguns pontos históricos muito rapidamente para associar como historicamente, nos anos 50, a propaganda e a política Estadunidense criaram um espantalho sobre os ideais Comunistas para manipular a população, inclusive criando um sentimento de conformismo ao afirmar que pobres nasceram pobres por obra divina, mas essa linha argumentativa que poderia inclusive ser um documentário inteiro por si só, é usada apenas para mostrar a articulação política Estadunidense por baixos dos panos para passar políticas enquanto ninguém vê. O que é uma perda de oportunidade, por exemplo, de associar esse período histórico a depoimentos, inclusive os que ela colheu de pastores de igrejas pequenas que são contra o Bolsonarismo, já que muitos freis e padres foram perseguidos pelos militares na época por acolherem os pobres e inclusive a refugiar diversos líderes e integrantes de grupos comunistas, assim como retrata o filme Batismo de Sangue (2006), que fala sobre a vida e as torturas sofridas pelo Frei Tito por apoiar o grupo guerrilheiro Aliança Libertadora Nacional.
Apesar das oportunidades perdidas e falta de aprofundamento, Apocalipse nos Trópicos segue com a mesma qualidade técnica que consagrou a Petra Costa como documentarista. O documentário tem takes excelentes e pausas bem trabalhadas para a fácil compreensão do conteúdo apresentado, além da edição que é de enorme qualidade por encaixar muito bem os vídeos de arquivo que são colocados ao longa. Toda a composição do filme, mostra que essa coletânea de fatos históricos a partir das gravações in loco dada início em 2018 no seu projeto anterior, por mais que seja útil para a população brasileira posteriormente conseguir compreender melhor a política brasileira que é muito complexa e polarizada, claramente o novo trabalho de Petra Costa não foi feito para brasileiros.

Com uma proposta ousada de reunir muitos tópicos complexos em meio a entrevistas no meio de articulações políticas no núcleo bolsonarista, a diretor Petra Costa lança seu novo documentário Apocalipse nos Trópicos, disponível na Netflix, que busca reunir um apanhado da história contemporânea da política brasileira ao mesmo tempo que tenta explicar como se deu a ascensão do Bolsonarismo após sua aproximação às religiões evangélicas. Para o público brasileiro, falta muito aprofundamento, principalmente histórico, que corrobore e embase as narrativas apresentadas, já que a diretora traz diversos tópicos de debate, que poderiam por si só serem documentários solos, ao invés de se aprofundar nas suas entrevistas para trazer um conteúdo mais completo, como foi em seu primeiro documentário, Democracia em Vertigem. Já para o público estrangeiro, que provavelmente é de fato o público alvo do documentário, o filme é um documentário bonito, bem filmado, dirigido e editado, assim como muito bem estruturado que explica de forma simples, direta e fácil de entender a política tão complexa nos períodos pós Impeachment da ex-Presidenta Dilma Rousseff, que resultou na então polarização política entre PT e Bolsonarismo.