Nota
Valentin (Raul Julia), é um preso político na época da ditadura militar brasileira, que, por azar, no meio de uma missão do seu grupo revolucionário, foi preso e torturado na tentativa de fazê-lo denunciar seus companheiros. Na prisão, ele divide sua cela com Molina (William Hurt), que está preso por aliciamento de menores. A princípio, Valentin segue hesitante em confiar nesse seu novo colega extravagante, que só fala em cinema da década de 40. Mas em meio às histórias narradas por Molina, onde uma artista francesa chamada Leni (Sônia Braga) se apaixona pelo soldado nazista Werner (Herson Capri) em um amor impossível, Valentin irá perceber que sua relação com Molina pode seguir consistênte, e para além de companheiros, os dois podem se tornam cúmplices. Dirigido pelo diretor argentino Héctor Babenco, O Beijo da Mulher Aranha se tornou um símbolo do cinema nacional, conseguindo espaço inclusive nas grandes premiações de cinema mundo afora.

Em uma coprodução entre Brasil e Estados Unidos, o diretor argentino Héctor Babenco decidiu adaptar o romance de 1976, mantendo o mesmo nome do livro do argentino Manuel Puig, considerado sua obra prima, com o diretor tendo a dura missão de levar essa obra gigante para as telonas. O livro, que fala bastante sobre a época da ditadura militar argentina, foi adaptada para se passar no Brasil, que viveu na mesma época uma ditadura tão cruel quanto foi a argentina, mas mostra a escolha curiosa do diretor de não optar por atores e artistas argentinos para integrar o seu elenco. Ao invés disso, diversos atores brasileiros consagrados e em ascensão compuseram os diversos personagens que, também curiosamente, falam inglês, em um filme dirigido e ambientado na américa latina. Mas a escolha do idioma provavelmente veio para agregar o ator estadunidense William Hurt, assim como Raul Julia, que viria a ter um grande reconhecimento em seu papel como Gomez Addams em Família Addams (1991). Raul Julia que, inclusive, é um dos astros principais da trama, tem um arco interessantíssimo envolvendo a sua construção de personagem, já que nunca sabemos exatamente os seus reais sentimentos, mas com a construção impecável que deixa em aberto para interpretação o que realmente ele sente.
As escolhas do elenco foram muito bem colocadas, como foi o caso de Sônia Braga, que brilha como Leni, e posteriormente em suas outras aparições, por manter essa figura enigmática que só ela conseguia trabalhar na época. Após ser protagonista de Gabriela (1983), nada mais óbvio do que escalá-la como Leni, esse papel sensual mas ao mesmo tempo misterioso e ingênuo, que casa super bem com a persona criada para ela nessa época. Já no elenco internacional, William Hurt é de fato quem rouba a cena no filme inteiro, mesmo tendo um papel fácil de cair no caricato, mas que ele trabalha com uma enorme sutileza trazendo diversas camadas para Molina, que tem diversos problemas familiares por conta de sua sexualidade, e que Hurt consegue nos fazer criar empatia por ele mesmo nos lembrando que ele é moralmente dúbio. Além disso, Molina também cria uma ótima discussão sobre gênero e sexualidade ao longo da trama, já que fica dúbio qual seria o real gênero de Molina, mas que não importa muito, já que Molina na verdade gostaria de ser como Leni, uma artista fina e elegante. A atuação de William Hurt, inclusive, lhe rendeu um Oscar de melhor ator em 1986, graças de fato a sua atuação extremamente sensível.

Mesclando engajamento político com uma delicadeza poética, O Beijo da Mulher Aranha traz um romance cheio de metáforas sobre a época da ditadura militar brasileira. No fim, a transposição do romance de Manuel Puig para o Brasil serve para dialogar com a realidade da ditadura militar que foi vivida em todos os países da américa latina, se propondo a expandir as barreiras linguísticas a partir da utilização do inglês como língua “neutra” que poderia levar o filme para outros contextos, já que estamos falando de uma época onde o cinema de língua não-inglesa não era nada valorizado. As atuações de William Hurt, Sônia Braga e Raul Julia são os destaques do filme, exaltando profundidade e humanidade a personagens que oscilam entre a violência do cárcere e a utopia dos sonhos cinematográficos de Molina, que conecta todos os cenários, do real ao imaginário, que serve também como metáfora para a realidade que eles estão vivendo. O filme se sustenta como um marco do cinema brasileiro, mesmo que seja apenas como uma co-produção entre Brasil, Argentina e EUA, em uma estética única que traz críticas não só ao regime ditatorial, como inconscientemente a temas tão importantes de sexualidade e gênero que mal eram discutidos na época, resultando numa obra a frente do seu tempo.