Nota
Chegou o momento do fim da grande saga da família Crawley. Dessa vez, a aristocracia e seus empregados embarcam em novos desafios, romances e transformações sociais na entrada dos anos de 1930. Quando Lady Mary se encontra no centro de um escândalo e a família vive um momento de dificuldades financeiras, todos os membros da família enfrentam o risco de vergonha social. Os Crawley, então, precisam aceitar mudanças enquanto os funcionários preparam a nova geração de herdeiros de Downton. O choque entre tradição e modernidade ganham os holofotes quando Mary assume o controle de Downton enquanto passa por seu divórcio e embarca em novos relacionamentos.

Downton Abbey: O Grande Final encerra com maestria o capítulo de uma das séries mais aclamadas mundialmente. Julian Fellowes entrega um desfecho que busca equilibrar emoção e previsibilidade, oferecendo ao público uma despedida envolvente, ainda que segura. Lady Mary assume definitivamente o papel de líder da propriedade, reafirmando-se como a personagem central que simboliza o constante embate entre tradição e modernidade. Edith, cuja trajetória sempre refletiu as frustrações de uma mulher em uma sociedade rígida e cheia de convenções, alcança uma conclusão satisfatória, embora previsível em sua estabilidade. Entre os empregados, o roteiro segue por caminhos mais conciliatórios, entregando resoluções rápidas e pouco conflitivas, como se a narrativa optasse pela harmonia em vez da tensão dramática.
O clímax emocional, inevitavelmente, recai sobre Violet Crawley (Maggie Smith). Sua despedida é o ponto alto do longa, tanto pela carga simbólica de sua personagem quanto pela força da interpretação magistral de Smith. Ainda que seja um adeus digno, a cena revela uma fragilidade do filme: a dependência excessiva da condessa viúva como motor dramático. Sem Violet, muitos personagens não atingem a mesma densidade, e o enredo perde parte de sua força. Em termos de direção e produção, O Grande Final preserva a estética impecável que consagrou a série: figurinos exuberantes, cenários grandiosos e uma fotografia que captura com precisão a atmosfera de época. No entanto, ao tentar encerrar todas as tramas de forma satisfatória, o filme sacrifica o risco e a ousadia, apostando em escolhas previsíveis que priorizam o conforto dos fãs.

Aclamada pela crítica, Downton Abbey conquistou inúmeros prêmios e indicações desde sua estreia. Tornou-se a produção britânica de época de maior sucesso desde Brideshead Revisited (1981), e entrou para o Guinness World Records, em 2011, como o “programa de televisão em língua inglesa mais aclamado pela crítica” daquele ano. Nesse mesmo período, venceu o Emmy de Melhor Minissérie ou Telefilme e, no ano seguinte, conquistou também o Globo de Ouro na mesma categoria. Ambientada no início do século XX, a trama original acompanha a família Crawley em sua luta para manter o legado de Downton Abbey. Assim, Downton Abbey: O Grande Final cumpre sua função de oferecer uma despedida emocionante e visualmente elegante, mas deixa a sensação de que a série, que tantas vezes soube equilibrar drama e crítica social, preferiu concluir sua trajetória com segurança em vez de desafiar narrativas estabelecidas. É um fim digno, mas menos corajoso do que poderia ter sido.
Ronaldo Santos
Professor, escritor, tradutor, blogueiro, entusiasta em tecnologia, nerd e pseudo intelectual.