Crítica | O Agente Secreto

Nota
5

Brasil, 1977. Fugindo de um passado misterioso, Marcelo (Wagner Moura), um especialista em tecnologia, volta ao Recife depois de uma jornada atribulada, em busca de um pouco de paz em um dos apartamentos de Dona Sebastiana (Tânia Maria), mas percebe que a cidade está longe de ser o refúgio que procura. Filmado em Recife, O Agente Secreto reúne uma coletânea de referências à cidade, especialmente após o documentário do diretor Kleber Mendonça, Retratos Fantasmas (2023), que fez todo um apanhado histórico dos cinemas de rua que existiram no século 20 e que já não existem mais, restando apenas o Cinema São Luiz, que acaba sendo uma das locações mais importantes do novo longa metragem de Kleber. E com o apoio de distribuição internacional da NEON, que foi responsável pela distribuição de Anora (2024), último ganhador de Melhor Filme do Oscar, o filme é a grande aposta do Brasil para concorrer ao Oscar 2026, como foi confirmado pela Academia de Cinema do Brasil.

Mesmo tendo sua estreia apenas para o dia 6 de novembro de 2025, O Agente Secreto foi submetido para exibição no Festival de Cannes, que ocorreu em Maio deste ano, e já conseguiu feitos históricos. O filme levou dois prêmios principais no festival, sendo as Palmas de Ouro por Melhor Diretor, para Kleber Mendonça, e de Melhor Ator, para Wagner Moura. Essa é a segunda vez que um diretor brasileiro recebe uma Palma de Ouro, sendo o primeiro o diretor Glauber Rocha em 1969, enquanto essa se torna a primeira indicação e primeiro prêmio a um ator brasileiro no festival. O Agente Secreto se torna também o segundo filme de Kleber Mendonça a receber uma Palma de Ouro, sendo o primeiro Bacurau em 2019, que recebeu o prêmio do Júri no mesmo ano. Vale lembrar que até hoje nenhum diretor ganhador da Palma de Ouro levou um Oscar de Melhor Direção, mas ter ganho, nos faz sonhar com pelo menos uma indicação. Enquanto isso, o último ator a levar tanto a Palma de Ouro quanto o Oscar de Melhor Ator foi o francês Jean Dujardin por sua performance em The Artist (2011), que traz a esperança que 15 anos depois essa coincidência se repita para Wagner Moura. 

O diretor Kleber Mendonça tem como uma de suas características principais a exaltação de Recife e Pernambuco em suas obras. Desde seu primeiro trabalho com curtas metragens, Kleber traz cartas de amor para a Cidade do Recife, em Traveling (1991), com uma estética ainda muito insegura, mas também em trabalhos posteriores como no curta Recife Frio (2009), onde ele traça uma crítica à classe média recifense com um “mocumentário” sobre mudanças climáticas. Já em seus trabalhos de mais destaque, como em Aquarius (2016), fica mais latente a sua ideia de enaltecer o Recife com uma estética mais refinada, trabalhando as praias da Zona Sul, e trazendo referências culturais como a seresta. Já O Agente Secreto retorna à Recife, mas dessa vez viajando para a Zona Central, trazendo as referências do Cinema São Luiz, que simbolicamente foi escolhido para sua pré-estreia, assim como a Rua da Aurora e as pontes do centro, tão importantes para a cultura Recifense.

O diretor também traz um trabalho surpreendente de reconstrução da Recife nos anos 70 com ajuda de computação gráfica, que transporta até mesmo quem nunca viveu aquela época, assim como o trabalho meticuloso de Thales Junqueira na direção de arte, que conseguiu transformar as ruas do Recife com carros de época garantindo outro nível de imersão, assim como de reconstituir o antigo Aeroporto do Recife, que tinham artes originais do artista Francisco Brennand, um ícone das artes plásticas de Pernambuco. Outra sacada inteligentíssima da direção de arte, foi utilizar a Universidade Federal de Pernambuco como locação para algumas cenas, já que os prédios datados dos anos 50, 60 e 70, que trouxe novamente essa imersão, só que nesse caso de uma forma muito mais simples e efetiva.

Os filmes de Kleber Mendonça Filho são normalmente roteirizados por ele mesmo, ainda mais nesse caso onde esse novo projeto é tão pessoal para ele depois de vir de um trabalho extenso de pesquisa como foi em Retratos Fantasmas, e dessa vez Kleber Mendonça também traz uma estrutura de roteiro inovadora. Adentramos no filme no mistério de quem é Marcelo, o que ele faz, para onde ele vai, e ao contrário de como normalmente se dá uma introdução de personagem, essas lacunas são deixadas para preenchermos ao longo da nossa experiência. Ao invés de seguir com uma narrativa simples e autoexplicativa, o filme não tem a intenção de explicar o que acontece, e é até melhor que se saiba o mínimo possível sobre o filme para ter uma experiência ainda mais rica. Novamente também o texto de Kleber retorna muito humorístico, com um humor bem recifense e bem brasileiro, cheio de expressões e referências locais, que deixa inclusive a curiosidade de como isso vai ser adaptado para as futuras campanhas de premiação no exterior, mas num geral, as sacadas humorísticas do filme transcendem muitas vezes a língua pela corporeidade de todo o elenco e pelo jogo de texto bem elaborado.

Falando de elenco, contamos com grandes nomes, como Maria Fernanda Cândido, Hermila Guedes, Alice Carvalho, Thomás Aquino e Gabriel Leone, que mesmo muitos não tendo tanto tempo de tela, cada um brilha da sua maneira. Claro que a grande estrela do filme é o Wagner Moura, que surpreende por ter uma atuação mais natural, que conversa com os últimos trabalhos dele, como foi em Guerra Civil (2024), onde sua atuação é focada bastante no ambiente que ele está inserido. Uma coisa interessante é que o seu sotaque baiano se mescla muito com as expressões pernambucanas, adicionando um mistério maior sobre quem é seu personagem. Tânia Maria, que tem um papel menor, mas de grande destaque, também é uma ótima surpresa por trazer todos os personagens que contracenam com ela para essa atuação extremamente natural, além de ser o melhor alívio cômico do filme. A direção cria uma atmosfera tão confortável entre os atores, que as interações entre eles parecem como se houvesse câmeras escondidas filmando o dia-a-dia dos personagens.

O diretor Kleber Mendonça se supera esteticamente com O Agente Secreto, entregando um Recife dos anos 70 de forma impecável do começo ao fim. Com um enredo inovador e uma produção super inventiva, o diretor Kleber Mendonça Filho conseguiu unir sua pesquisa histórica em Retratos Fantasmas com o auxílio da computação gráfica e de uma direção de arte impecável, resultando na recriação da Recife dos anos 70. Wagner Moura encanta como Marcelo, com seu carisma inegável, necessário para um personagem que precisa da empatia do público do começo ao fim, além de precisar encantar o público estrangeiro na futura campanha ao Oscar no ano que vem, e de trabalhar com uma naturalidade excepcional, mesclando seu sotaque com o pernambucano sem cair na caricatura. Enquanto isso, o resto do elenco também tem seu espaço, como Alice Carvalho e Maria Fernanda Cândido que tem pouquíssimo tempo de tela, mas que suas cenas são marcantes e super necessárias para a trama.

O longa é sem dúvidas um mergulho nas memórias da cultura pernambucana, trazendo essa experiência de nos fazer descobrir ou redescobrir as ruas do Recife, as paisagens urbanas que não são mais as mesmas, fazendo sobretudo do Recife também um personagem vivo desse novo projeto de Kleber. O Agente Secreto estreia apenas no dia 6 de novembro em todos os cinemas nacionais, mas até lá, algumas sessões acontecerão em festivais de cinema de todo Brasil, então vale a pena checar a sua cidade para garantir sua presença para essa experiência do cinema brasileiro que segue mais vivo do que nunca.

 

Ilustradora, Designer de Moda, Criadora de conteúdo e Drag Queen.

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