Crítica | Amores Materialistas (Materialists)

Nota
2

O amor pode ser vendido como um produto? Em Amores Materialistas, essa é a provocação inicial. O filme convida o espectador a entrar em um universo reluzente, de apartamentos luxuosos e relacionamentos cuidadosamente embalados, para depois questionar se por trás desse brilho existe alguma verdade. A ideia é promissora, mas a execução deixa a sensação de que, em vez de uma reflexão profunda sobre sentimentos e escolhas, recebemos um reflexo polido que não se sustenta por muito tempo.

Lucy (Dakota Johnson) é uma matchmaking sofisticada: ela vende amor, harmonia, conexões perfeitas. Quando aparece o milionário elegante (Pedro Pascal) e o ex ator meio falido (Chris Evans), ela se vê dividida entre o conforto seguro de quem “tem tudo” e a paixão desajeitada, vulnerável, que tem falhas. O elenco é bom; Johnson tem momentos de brilho, sobretudo quando a personagem precisa expor suas dúvidas, suas feridas emocionais. Evans consegue trazer humildade, frustração e esperança. Pascal empresta charme e presença — sua performance funciona melhor nos gestos sutis que no drama pleno.

O filme tenta desconstruir a comédia romântica clássica — o par perfeito, o final ideal, o “felizes para sempre” —, mas falha em alguns momentos por mantê-la parcialmente dentro do esquema previsível. A ideia de que o amor pode ser tratado como trocas, sejam de carinho, de segurança, de estilo de vida, é instigante, mas o roteiro pouco arrisca. Em vez de explorar a complexidade dos temas com profundidade (como o peso emocional de uma escolha ou o custo da imagem pública), ele acaba caindo em diálogos expositivos ou cenas simbólicas que já vimos muitas vezes.

Em matéria de ritmo o filme oscila. A primeira metade funciona melhor, há charme, há conflito, há uma construção de personagem que prende. Mas conforme a trama avança, ele parece se desgastar: certas cenas repetem dilemas já apresentados sem trazer algo novo, e o conflito emocional que deveria crescer acaba parecendo empurrado para o final. É como se toda a carga dramática se concentrasse nos minutos finais, tentando resolver tensões que não foram devidamente preparadas.

Visualmente, Amores Materialistas faz bonito. A fotografia é elegante, os espaços são bem explorados, o figurino ajuda a compor as personas de cada personagem. A trilha sonora também acerta, sustentando o humor e o drama de forma leve, quase vinda do pop sofisticado. Essas qualidades ajudam bastante a manter o interesse, especialmente porque muitos dos diálogos ou desenvolvimentos emocionais não têm força igual.

O problema maior aparece na química entre os personagens principais. A relação com o milionário parece fisgada demais pelo ideal de perfeição; com o ex, a alternância entre saudade e idealização acaba ficando um pouco rasa. É difícil acreditar totalmente na transformação emocional quando o filme não mostrou tanto do passado deles juntos, nem quanto da construção que faria a escolha final parecer plenamente justificada. Em alguns momentos o filme quer nos fazer torcer, mas falta um empurrãozinho extra para o envolvimento emocional completo.

Além disso, a proposta de crítica social, sobre status, consumo, aparência, existe e faz sentido, mas não é aprofundada. O materialismo aparece como pano de fundo, mas raramente como fardo verdadeiro. Seria mais interessante se as consequências desse estilo de vida fossem exploradas com menos idealização e mais nuance.

No fim, Amores Materialistas é um filme que encantaria em outros contextos e frustra na medida certa. Encanta pelo estilo, pelas atuações competentes e pelo tema promissor. Frustra porque entrega menos do que promete em profundidade ou impacto emocional. É ótimo para sessões leves, para refletir depois, mas acaba ocupando um espaço pífio na sua vida: esquecível e descartável. Se você está disposto a aceitar as imperfeições, assista sem compromisso.

 

Pernambucano, jogador de RPG, pesquisador nas áreas de gênero, diversidade e bioética, comentarista no X, fã incontestável de Junji Ito e Naoki Urasawa. Ah, também sou advogado e me arrisco como crítico nas horas vagas.

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