Crítica | Pequeno Demônio (Little Evil)

Nota
3

Gary Bloom se casa com Samantha acreditando estar dando início a uma nova fase feliz de sua vida, mas logo descobre que a união vem acompanhada de um desafio inesperado. Além de lidar com as transformações de se tornar padrasto, ele percebe que Lucas, o filho de cinco anos da esposa, não é apenas uma criança difícil de lidar. O menino apresenta comportamentos estranhos, uma aura sombria e atitudes que vão muito além das rebeldias comuns da idade. Aos poucos, Gary se vê preso em situações bizarras e inexplicáveis, que o fazem questionar até onde vai a imaginação e onde começa o sobrenatural. Entre crises familiares, conflitos cotidianos e acontecimentos cada vez mais macabros, a convivência se transforma em uma jornada de sobrevivência, marcada pelo humor ácido que surge diante do terror.

Lançado em 2017, Pequeno Demônio aposta em uma mistura de humor ácido e terror sobrenatural para construir sua identidade, funcionando quase como uma versão satirizada de The Omen (1976). Dirigido por Eli Craig (responsável pela franquia Zumbilândia), conhecido por explorar o absurdo em situações de pavor, o longa brinca com clichês clássicos de histórias sobre o Anticristo, mas dá a eles uma roupagem debochada e contemporânea. A fotografia mantém uma estética mais leve, sem mergulhar no clima sombrio típico do gênero, reforçando o tom de paródia. Já o roteiro busca equilibrar referências a filmes de possessão e exorcismo com diálogos carregados de ironia, criando uma narrativa que dialoga tanto com fãs do horror quanto com quem prefere a comédia. O resultado é uma obra que não pretende ser levada totalmente a sério, mas que se diverte em subverter expectativas de quem imagina um suspense pesado e encontra algo mais escrachado.

Como toda boa comédia de terror, o filme se apoia bastante no carisma de seu elenco para sustentar o equilíbrio entre riso e tensão. Adam Scott, no papel de Gary, transmite de forma convincente o desespero do padrasto que tenta manter a calma diante de uma realidade cada vez mais absurda. Sua atuação funciona como o ponto de equilíbrio entre o ridículo e o assustador, sempre dosado de forma natural. Evangeline Lilly interpreta Samantha com a leveza necessária, tornando crível a relação afetiva da família, enquanto Owen Atlas dá vida a Lucas com um misto de inocência e estranheza que sustenta o aspecto sobrenatural da trama. A química entre os atores contribui para que os momentos mais exagerados do roteiro não percam o impacto, ainda que nem sempre atinjam o timing perfeito. A graça do filme surge justamente desse contraste entre uma rotina familiar comum e os acontecimentos demoníacos que fogem completamente do controle.

Apesar da proposta divertida e do bom uso da sátira, Pequeno Demônio não consegue manter o mesmo fôlego do início ao fim. Algumas piadas soam forçadas, e há trechos em que o ritmo cai justamente quando a tensão poderia ser melhor explorada. Ainda assim, a obra se sustenta como uma experiência curiosa dentro do gênero, aproveitando-se do exagero para brincar com o imaginário popular sobre o mal encarnado em uma criança. A comédia de terror aqui funciona mais pelo contraste do que pelo impacto individual das cenas, criando um ambiente leve até mesmo em situações que, em outro contexto, seriam perturbadoras. Embora não seja memorável ou revolucionário, o longa entrega exatamente o que promete: uma paródia debochada, feita para divertir sem grandes pretensões. É nesse tom descompromissado que encontra sua força, agradando a quem busca rir do improvável sem esperar uma narrativa complexa.

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *