Nem sempre fugir da cidade é o refúgio que parece. Às vezes, quanto mais afastado você está, mais difícil é escapar do que te encontra. Lugares antigos guardam histórias, e algumas delas nunca deveriam ser reabertas. Então pensa comigo… o que você faria se ouvisse alguém pedindo ajuda, mas descobrisse que ninguém mais poderia estar ali?
Buscando uma vida mais calma, longe do ritmo sufocante da cidade, um casal decidiu se mudar com os dois filhos para uma casa de campo próxima ao vilarejo onde haviam crescido. A propriedade estava abandonada há muitos anos, as tábuas do alpendre rangiam a cada passo e o cheiro de mofo denunciava o tempo que o lugar ficou esquecido. Ainda assim, o preço baixo e a ideia de recomeçar juntos pareciam irresistíveis. As crianças, um menino de dez anos e uma menina de seis, ficaram encantadas em ter seus próprios quartos e passaram o dia explorando os arredores, curiosas com cada canto daquela nova vida. Quando a noite chegou, o silêncio profundo do campo trouxe um tipo diferente de paz. O casal se olhou satisfeito, acreditando que finalmente encontrariam o sossego que tanto procuravam. Mas a casa antiga parecia respirar sozinha, e cada estalo das madeiras, antes imperceptível, começou a soar como um aviso.

Durante a madrugada, algo quebrou a calmaria. A pequena Elisa se levantou da cama, ainda sonolenta, e caminhou até um canto do quarto. Encostou as mãos na parede e começou a sussurrar, repetindo uma frase em tom quase inaudível: “Ajudem-me…”. Os pais ouviram o murmúrio, mas acharam que era apenas mais um episódio de sonambulismo, algo que já tinham enfrentado antes. Com cuidado, levaram a menina de volta para a cama e acreditaram que tudo ficaria bem. No entanto, a cena se repetiu nas noites seguintes, sempre com a mesma expressão vazia, os mesmos gestos, a mesma parede. Por precaução, decidiram colocar os dois filhos para dormir juntos, imaginando que isso traria conforto e segurança. Ainda assim, as súplicas de Elisa continuavam, e o quarto parecia carregar um peso cada vez maior.
Com o passar dos dias, Elisa começou a mudar. Tornou-se apática, falava pouco e evitava o contato com todos. O irmão, assustado, dizia que ela acordava todas as noites e ia até o quarto antigo, onde ficava arranhando a parede até amanhecer. As marcas nas tábuas começaram a aumentar, pequenas lascas de madeira apareciam espalhadas pelo chão, e o som das unhas raspando ecoava pela casa como um lamento preso. Os pais, já tomados por um medo crescente, decidiram procurar respostas no vilarejo. Lá, souberam que muitos anos antes um homem havia morado naquela mesma casa com a filha pequena. Um dia, a menina desapareceu na floresta e nunca mais foi encontrada. O pai, inconsolável, foi encontrado morto pouco tempo depois, e ninguém mais quis viver ali desde então.

A revelação fez o sangue dos pais gelar. Ao voltarem para casa, ouviram novamente os sussurros de Elisa, mais desesperados do que nunca. Seguiram o som até o quarto antigo, onde a menina arranhava a parede até ferir as mãos. Decidiram, enfim, retirar os painéis de madeira que cobriam aquele ponto. A cada tábua removida, o cheiro de terra e podridão aumentava, até que o último pedaço revelou um pequeno esqueleto com as mãos amarradas, encolhido como se ainda implorasse por socorro. O silêncio tomou conta do cômodo, e a respiração da menina cessou por alguns instantes. Quando abriu os olhos novamente, não era mais Elisa quem os observava.
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.