Nota
“Gosta de filmes de terror? Qual o seu favorito?”
Drew Decker está sozinha em casa à noite quando recebe um telefonema misterioso e ameaçador. O que começa como uma brincadeira rapidamente se transforma em um pesadelo quando ela é perseguida por um assassino mascarado, vestido como o icônico Ghostface. A morte de Drew marca o início de uma série de assassinatos bizarros em uma pequena cidade repleta de adolescentes inconsequentes. No dia seguinte, Cindy Campbell e seus amigos recebem uma mensagem assustadora com os dizeres “Eu sei o que você fez no último Halloween”, lembrando-os de um acidente ocorrido um ano antes, quando atropelaram um homem durante um passeio em uma estrada deserta. Agora, Cindy, Bobby, Brenda, Ray, Greg e Buffy precisam enfrentar o mascarado que os persegue, tentando sobreviver a situações cada vez mais absurdas e sangrentas, em meio a um turbilhão de humor, referências e paródias aos clássicos do terror adolescente dos anos 1990.

Os irmãos Shawn Wayans e Marlon Wayans estavam preparando um roteiro de uma paródia de Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado, em colaboração com Buddy Johnson e Phil Beauman, quando esbarraram no roteiro de Jason Friedberg e Aaron Seltzer que parodiava Pânico. Dessa união, com o apoio da Miramax, dos irmãos Bob Weinstein e Harvey Weinstein, nasceu Scream If You Know What I Did Last Halloween, mais tarde rebatizado como Scary Movie (Todo Mundo em Pânico no Brasil). A proposta parecia fraca inicialmente, principalmente por ser o primeiro trabalho como atriz de Anna Faris, mas surpreendeu a todos quando chegou aos cinemas e se tornou um sucesso comercial, estreando na primeira posição nas bilheterias e arrecadando um total de 157 milhões de dólares no mercado interno e 121 milhões em outros países. O que parecia apenas um besteirol feito por uma equipe inexperiente rapidamente se tornou um marco nas comédias de terror e nas sátiras. Sem medo, o longa foi além de parodiar Pânico e Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado, levando o público por uma viagem que também brinca com Halloween, O Iluminado, Sexta-Feira 13, Os Suspeitos, O Sexto Sentido, A Bruxa de Blair, Matrix e Buffy, a Caça-Vampiros.
É impossível pensar em Todo Mundo em Pânico sem lembrar da icônica sequência de abertura em que Carmen Electra tenta se defender com uma banana, corre de lingerie pelo jardim enquanto os irrigadores disparam e termina com uma facada no silicone, uma cena tão memorável quanto a de Drew Barrymore no Pânico original. O humor do longa é ácido, exagerado e propositalmente escrachado, refletindo o estilo das comédias irreverentes do final dos anos 1990 e início dos 2000. No entanto, é um tipo de humor que só funciona plenamente quando se considera o contexto da época em que foi produzido. As inúmeras piadas envolvendo estupro, homofobia, machismo e capacitismo dificilmente passariam despercebidas ou seriam aprovadas hoje em dia. Assistir ao filme atualmente exige certo desprendimento moral e um olhar crítico, aceitando que parte de seu conteúdo envelheceu mal, mas reconhecendo sua importância como retrato de um tipo específico de comédia que já não existe mais.

Todo Mundo em Pânico não apenas revitalizou o interesse por filmes de terror, mas redefiniu o gênero das paródias no cinema dos anos 2000. Seu sucesso abriu espaço para uma enxurrada de produções que tentaram repetir a fórmula, nem sempre com o mesmo equilíbrio entre irreverência e timing cômico. Parte desse êxito se deve ao elenco, especialmente a dupla formada por Anna Faris e Regina Hall, que demonstram um timing humorístico impecável. Faris, com sua ingenuidade exagerada e expressões caricatas, constrói uma protagonista tão tola quanto carismática, enquanto Hall entrega uma performance espirituosa e desinibida com Brenda, roubando a cena sempre que aparece. A química entre as duas é um dos pilares da narrativa e define o tom da franquia. Essa combinação de humor físico, sátira inteligente e performances carismáticas consolidou Todo Mundo em Pânico como uma das paródias mais influentes de sua geração.
Mesmo com seus excessos e piadas que hoje soam datadas, Todo Mundo em Pânico permanece como um retrato preciso do que era o humor do início dos anos 2000: um humor sem filtros, mas com personalidade. O filme conseguiu o que poucos “besteirois” alcançam: transformar o absurdo em identidade e, de quebra, marcar uma geração que aprendeu a rir dos clichês do terror. Com o passar dos anos, tornou-se não apenas uma paródia de sucesso, mas também um símbolo de como rir do medo pode ser, paradoxalmente, uma forma de celebrá-lo.
“- Onde você pensa que a gente tá? Em um filme de terror?”
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.