Nota
O mal raramente desaparece. Às vezes, ele apenas muda de forma, muda de voz, muda de número. Telefone Preto 2, dirigido novamente por Scott Derrickson, começa com essa sensação incômoda: a de que o passado ainda está do outro lado da linha, esperando para ser atendido. A continuação do aclamado terror de 2022 é tudo o que uma sequência deveria ser — maior, mais sombria e mais consciente do próprio legado. O diretor não tenta repetir o que funcionou antes, mas ampliar o que o primeiro filme apenas insinuava.

Aqui, o sobrenatural e o trauma continuam entrelaçados. Finney Shaw, agora mais velho, tenta seguir em frente depois dos eventos do primeiro longa, mas o eco do que viveu continua presente. Derrickson transforma o retorno do vilão em um pesadelo de ciclos e memórias, e a trama não demora a mostrar que, mesmo enterrado, o horror pode ser reanimado. A narrativa é construída com ritmo e maturidade, mesclando o realismo da dor com o misticismo das vozes que vêm do além.
O filme bebe com orgulho na fonte dos grandes clássicos do gênero. Há ecos visíveis de A Hora do Pesadelo, tanto no modo como o medo invade o inconsciente, quanto na figura do mal como uma força que se alimenta de lembranças. Há também o espírito de Sexta-Feira 13, especialmente nas cenas de perseguição e na forma física da ameaça, que parece sempre à espreita, mesmo quando não é vista. E há, ainda, o DNA de O Iluminado e de outros contos de Stephen King, perceptível na ambientação suburbana, no isolamento psicológico dos personagens e na ideia de que o terror mais assustador nasce do que já conhecemos.
Scott Derrickson demonstra, mais uma vez, que entende o ritmo do medo. Ele filma o pavor com elegância, sabendo quando se aproximar e quando recuar. A tensão é construída com pausas, silêncios e imagens que ficam gravadas pela sugestão, não pela exposição. O uso de cores frias e da granulação na imagem cria uma textura nostálgica que remete aos terrores dos anos 1980, sem cair na simples homenagem. O diretor não quer apenas citar o passado, mas dialogar com ele.

A atuação de Mason Thames, reprisando o papel de Finney, é um dos pilares do filme. O ator entrega um protagonista amadurecido, mas ainda assombrado. Ele carrega no olhar o peso do que viveu, e sua relação com o sobrenatural parece agora menos de medo e mais de compreensão. Finney entende o que é estar entre mundos, e essa ambiguidade o torna um personagem mais interessante. Thames consegue expressar a coragem e o trauma sem precisar verbalizar demais, e sua presença confere ao filme um tom melancólico que o diferencia de outras continuações do gênero.
Madeleine McGraw, que volta como Gwen, tem aqui um arco mais ativo. Ela representa a voz da intuição, o elo entre a fé e o medo, e é quem mantém o fio emocional da história. Suas cenas trazem um equilíbrio entre o pavor e a esperança, e o vínculo entre os irmãos continua sendo o centro afetivo do longa. O vilão, interpretado novamente por Ethan Hawke, surge com ainda mais intensidade. A máscara que já se tornara ícone do primeiro filme ganha novas formas e significados, e Hawke alterna carisma e repulsa com maestria. Ele é o tipo de presença que perturba mesmo quando está fora de quadro.
Derrickson, que já havia mostrado domínio no primeiro filme, agora se mostra mais confiante para experimentar. Há momentos em que o filme flerta com o surrealismo, incorporando visões e flashbacks que lembram a atmosfera alucinada de O Iluminado. Essa mistura entre real e onírico faz com que Telefone Preto 2 pareça um pesadelo que nunca termina completamente. A montagem, marcada por transições abruptas e cortes que simulam lembranças fragmentadas, reforça a sensação de que estamos presos junto com Finney em uma espécie de loop entre passado e presente.

Tecnicamente, o filme é impecável. A fotografia de Brett Jutkiewicz trabalha com sombras densas e luzes difusas, criando uma tensão constante entre o que se vê e o que se imagina. A trilha sonora de Mark Korven, que já havia se destacado em A Bruxa e O Farol, volta a explorar sons metálicos e dissonantes, fazendo com que cada ruído soe como um presságio. O som do telefone, em especial, volta a ser o centro do terror: não apenas um recurso narrativo, mas um símbolo daquilo que insiste em nos chamar de volta.
O que torna Telefone Preto 2 uma excelente continuação é a maneira como ele compreende o próprio universo. Não tenta apenas ampliar o escopo da história, mas aprofundar o que já havia sido plantado. É um filme sobre sobrevivência, mas também sobre o que significa viver depois de ter enfrentado o medo. O sobrenatural continua sendo o catalisador, mas o terror real vem da memória — da impossibilidade de esquecer.
No fim, Telefone Preto 2 é um retorno ao horror clássico com alma contemporânea. Derrickson presta homenagem às raízes do gênero enquanto constrói algo genuinamente seu. As referências a A Hora do Pesadelo, Sexta-Feira 13 e O Iluminado não são apenas piscadelas nostálgicas, mas parte de uma conversa com o próprio medo, esse velho conhecido que nunca deixa de atender quando chamado. É raro ver uma sequência que entende tão bem o que a tornou possível. E quando o telefone toca novamente, não há escapatória: o terror ainda tem muito a dizer.
Victor Freitas
Pernambucano, jogador de RPG, pesquisador nas áreas de gênero, diversidade e bioética, comentarista no X, fã incontestável de Junji Ito e Naoki Urasawa. Ah, também sou advogado e me arrisco como crítico nas horas vagas.