Review | Damien [Season 1]

Nota
4

“Damien, eu te amo. É tudo por você.”

Damien Thorn é um fotógrafo de guerra experiente que passou a vida tentando registrar os horrores do mundo, sem imaginar que ele próprio carregava dentro de si o maior deles. Durante uma missão no Oriente Médio, um encontro enigmático desperta lembranças enterradas de sua infância e o obriga a confrontar um passado esquecido. Conforme os eventos sobrenaturais começam a se intensificar ao seu redor, Damien percebe que há algo muito maior e mais sombrio guiando sua trajetória. A série acompanha sua jornada de autodescoberta e tormento, explorando o conflito entre fé e destino, luz e escuridão. O que começa como uma narrativa sobre trauma e identidade rapidamente se transforma em uma luta espiritual e existencial, quando Damien passa a questionar se é apenas uma vítima das circunstâncias ou o próprio presságio do fim dos tempos.

Produzida pela A&E, Damien serve como uma continuação direta do clássico The Omen (1976), desconsiderando todas as sequências posteriores, incluindo Damien: A Profecia 2. A proposta é interessante, revisitar o personagem décadas depois e explorar o impacto psicológico de descobrir-se o Anticristo, mas a execução nem sempre sustenta o peso da ideia. A série alterna entre momentos de tensão bem construídos e subtramas desnecessárias que diluem o ritmo e afastam o público do núcleo principal. Há instantes em que o roteiro parece se perder, caindo em armadilhas típicas de dramas adolescentes, o que enfraquece o suspense e aproxima a estética daquilo que se veria em uma produção da CW. Ainda assim, a atmosfera sombria e a fotografia cuidadosamente trabalhada garantem um tom maduro, evitando que Damien se torne apenas mais uma tentativa esquecível de reviver um clássico do terror.

A proposta de Damien se diferencia de outras adaptações televisivas ao não optar por um reboot, mas sim por uma continuação direta do filme original de 1976, explorando o que aconteceu com o garoto após os eventos do clássico. A ideia de acompanhar a ascensão do Anticristo sob uma ótica mais humana carregava um potencial imenso, e nos primeiros episódios essa promessa parecia distante. O ritmo inicial é fraco, e as decisões narrativas de Glen Mazzara comprometem a força simbólica da trama. No entanto, a partir do quarto episódio, a série começa a encontrar seu tom, revelando lampejos de criatividade e construções visuais que flertam com o horror psicológico de forma envolvente. Mesmo sem atingir todo o potencial sugerido, Damien demonstra que havia ali uma base sólida para algo maior, um prenúncio de grandeza que infelizmente não chegou a florescer.

Bradley James assume o papel-título com intensidade surpreendente. Distante da aura juvenil de Merlin, o ator mergulha em uma atuação contida e perturbadora, traduzindo o conflito interno de um homem dividido entre a fé e o destino inevitável. Sua performance dá credibilidade a uma história que, por vezes, se perde em subtramas desnecessárias. Ao redor dele, Megalyn Echikunwoke entrega uma presença firme como Simone, trazendo nuances emocionais que equilibram o lado humano da narrativa, enquanto Barbara Hershey se destaca como Ann Rutledge, a figura que manipula e guia Damien com uma mistura de devoção e frieza. A direção, em especial nos episódios centrais, aposta em uma fotografia escura e simbólica, evocando o tom sombrio do original de Richard Donner. Ainda que Glen Mazzara falhe em unificar o material, é inegável que a série encontra momentos em que o peso dramático e o terror se alinham de forma impressionante.

Repleto de referências ao clássico de 1976, Damien presta homenagem a The Omen em detalhes sutis e constantes. Fotografias dos personagens do filme original, crucifixos invertidos e a icônica “Ave Satani” ecoando em quase todos os episódios reforçam o elo com a obra de Richard Donner, ainda que a série não consiga sustentar a mesma força narrativa. Sua atmosfera sombria, marcada por simbolismos religiosos e dilemas morais, entrega momentos intensos, mas o excesso de subtramas e o ritmo irregular enfraquecem o impacto da história. Com dez episódios de cerca de quarenta minutos, Damien conduz o espectador entre expectativa e frustração, oscilando entre lampejos de genialidade e escolhas questionáveis. No fim, a produção desperta esperança e decepção em igual medida, e seu cancelamento após a primeira temporada deixa a sensação de que algo maior estava prestes a emergir, interrompido antes de cumprir seu destino.

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

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