Crítica | Bom Menino (Good Boy)

Nota
3

“Seu avô também vinha aqui com o cachorro dele. Depois que acharam o corpo dele, nunca mais vimos o cachorro”

Todd acaba de receber alta hospitalar depois de ser encontrado por sua irmã, Vera, sozinho em casa e vomitando sangue. Ignorando as recomendações médicas, ele decide se mudar para a casa isolada do avô com seu cachorro, Indy, sem saber que forças sobrenaturais espreitam nas sombras. O local está abandonado desde que o avô foi encontrado morto e emana uma aura opressiva de perigo, perceptível apenas por Indy, assim como a sombra humanoide que ronda o terreno, pronta para atrapalhar a rotina de Todd. Agora, cabe ao corajoso cachorro enfrentar essas ameaças para proteger seu dono. Mas será que Indy será capaz de salvar Todd do mal que se aproxima?

Marcando a estreia de Ben Leonberg na direção, Bom Menino conta basicamente com três atores, mas a grande estrela é realmente Indy, o cachorro do próprio Leonberg, escolhido para carregar toda a trama e sustentar o terror sem depender de efeitos visuais. O filme começa em ritmo lento, e só aos cinco minutos temos os primeiros indícios claros da presença sobrenatural, com a ação da entidade interferindo de forma mais direta apenas por volta dos trinta minutos. Essa demora para engrenar compromete parte da tensão, já que a narrativa oferece vários ganchos que poderiam ter sido melhor explorados para intensificar o terror. Ainda assim, a simplicidade da proposta e o vínculo emocional entre Todd e Indy mantêm o espectador curioso. É evidente que Leonberg ainda é inexperiente, mas compensa suas limitações com um desfecho sólido e surpreendente, que redime a lentidão inicial e entrega um final que realmente vale a espera.

Uma boa comparação é o filme Presença (2025), de Steven Soderbergh, que apresenta a rotina de uma casa assombrada sob o ponto de vista da entidade que a habita, uma proposta inovadora e envolvente. A ideia de Leonberg em Bom Menino é semelhante, mas o longa não consegue tornar a história progressiva ou cativante enquanto a presença da entidade não se manifesta de forma explícita. Talvez esse seja o maior problema do filme: ele depende fortemente dos efeitos ligados à ação do ser maligno, mas, ao mesmo tempo, mantém a entidade passiva em relação ao enredo, com poucas cenas em que ela realmente é vista ou interfere na vida de Todd.

Arielle Friedman (Vera) e Larry Fessenden (avô de Todd) têm participações pontuais, o que acaba limitando a possibilidade de sentirmos o peso de seus trabalhos na produção. Mesmo Shane Jensen, que interpreta Todd, aparece relativamente pouco, mas demonstra domínio em sustentar o personagem e transmitir sua força e rebeldia. Jensen é eficiente ao retratar o vínculo afetivo entre o dono e o cão, e principalmente ao fazer o público sentir a dor e o desespero de Indy à medida que a entidade intensifica sua interferência na vida de Todd. É angustiante acompanhar o personagem adoecendo cada vez mais, e até os breves flashes que revelam o destino do avô funcionam como peças que enriquecem a trama, ainda que alguns demorem a se encaixar por completo.

Bom Menino é um filme irregular, mas que consegue manter o interesse do espectador graças à presença carismática de Indy e à construção gradual da tensão. O elenco humano, embora limitado em tempo de tela, cumpre seu papel, com Shane Jensen se destacando ao transmitir a força e a vulnerabilidade de Todd, reforçando o vínculo emocional com o cachorro. O filme poderia ter sido mais enxuto e explorado melhor os ganchos de terror, mas ainda assim entrega momentos de impacto, especialmente nos flashes que revelam o passado do avô. O ato final é abrupto, mas surpreendente, com uma sequência brutalmente emotiva que nos coloca empáticos ao desespero de Indy, compensando a lentidão inicial e garantindo um fechamento memorável. Apesar de suas falhas, Bom Menino funciona como uma experiência emocionalmente envolvente, com bons momentos de suspense e tensão, embora não atinja todo o potencial de sua premissa.

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

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