Review | Tremembé [Season 1]

Nota
4

“O único lugar seguro pra mim é Tremembé”

Todos conhecemos os crimes e os criminosos que habitam o “panteão” nacional, mas o que acontece depois da condenação? Tremembé é uma série que se propõe a revelar a rotina de presos infames como Suzane von Richthofen, Roger Abdelmassih, Elize Matsunaga, os irmãos Cravinhos, Sandrão, Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá, explorando as complexas dinâmicas de convivência dentro do sistema prisional mais famoso do país. Baseada nos livros de Ullisses Campbell, a produção oferece uma visão inédita dos bastidores da vida carcerária na Penitenciária Doutor José Augusto César Salgado, equilibrando fidelidade aos fatos e ritmo narrativo envolvente, enquanto levanta debates essenciais sobre o sistema prisional brasileiro e suas implicações sociais.

A série vai além de adaptar Tremembé: O Presídio dos Famosos (2025) e também se apoia em outras obras de Ullisses Campbell, como Suzane: Assassina e Manipuladora (2020) e Elize Matsunaga: A Mulher que Esquartejou o Marido (2021). É possível ainda perceber referências sutis a Diário de Tremembé: O Presídio dos Famosos (2019), de Acir Filló, e até ao documentário Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime (2021), da Netflix. Dirigida por Vera Egito, a produção nasce de um roteiro escrito em conjunto por Egito, Campbell, Juliana Rosenthal, Thays Berbe e Maria Isabel Iorio, e demonstra inteligência ao definir claramente o foco narrativo, sem deixar de dar espaço a outras figuras marcantes que passaram por Tremembé. Entre elas estão o próprio Acir Filló, Gil Rugai, Lindemberg Alves, Luciana Olberg (na série, Poliana), Carlos Sussumu (na série, José Tumura), Pimenta Neves, Duda (na série, Luka) e muitos outros nomes que completam o mosaico de histórias conhecidas e esquecidas do presídio.

A série é um espetáculo à parte. Segundo Vera Egito, a ficção funciona como uma moldura narrativa que organiza temporalmente os eventos reais, transformando Tremembé em algo que pode ser facilmente considerado uma versão brasileira de Orange Is the New Black, série que, inegavelmente, consolidou a Netflix mundialmente. Com cinco episódios de cerca de cinquenta minutos, a produção supera as expectativas e eleva o padrão dos true crimes nacionais. Marina Ruy Barbosa entrega uma atuação impressionante como Suzane von Richthofen, explorando um lado muito mais manipulador e psicopata da criminosa, superando até sua versão em O Menino que Matou Meus Pais. A performance é magnética: se a personagem não fosse real, seria facilmente amada pelo público. A caracterização também surpreende, modificando traços da atriz para aproximá-la da verdadeira Suzane. Outro destaque é Kelner Macêdo, que chama atenção como Cristian Cravinhos, revelando um lado pouco explorado do ex-cunhado de Suzane. A trama gerou até polêmica fora das telas, com o pronunciamento do verdadeiro Cristian Cravinhos contestando a representação, o que só aumentou a curiosidade do público.

Carol Garcia (Elize Matsunaga) e Letícia Rodrigues (Sandrão) não têm tanto tempo de tela quanto Marina, mas ainda assim conseguem marcar território, mostrando as camadas e motivações das criminosas e fortalecendo um olhar diferenciado sobre a opinião pública, algo que só complementa a construção que a Netflix fez de Elize no documentário, que inclusive é colocado dentro dos eventos da série. Bianca Comparato (Anna Carolina Jatobá) é uma das personagens que sofre com menos tempo de tela, talvez por ser um dos casos que tem menos no que se basear, afinal Elize e Suzane foram ponto central em seus respectivos livros, que são base para o roteiro, mas ao mesmo tempo é uma das personagens que insinua mais camadas, como se tivesse se tornado vítima de si mesma, considerando o quanto sua história é complexa e impulsiva, e o quanto ela se mostra como o elo fraco da relação. Lucas Oradovschi surpreende bastante como Alexandre Nardoni pela semelhança do ator com o criminoso e consegue se entregar tão bem ao papel que nos faz enxergar a frieza de um pai que, depois de matar a filha, foi capaz de montar uma cena de crime para se inocentar. Felipe Simas (Daniel Cravinhos), assim como tantos outros personagens coadjuvantes, cumpre bem o papel, deixando sua história marcada no enredo mesmo sem tanto tempo de tela, ao mesmo tempo que deixa claro os arrependimentos e a luta por reconstruir sua vida.

Tremembé surpreende ao retratar muito mais do que um presídio. A série mostra a conexão e as relações entre os detentos, revelando o quanto o passado impacta a vida de cada um desses criminosos e como essas marcas moldam a convivência dentro da prisão. Além de explorar o presente, o show utiliza seus episódios para revisitar os crimes que tornaram seus protagonistas figuras notórias no Brasil, oferecendo um prólogo envolvente e necessário. A produção também se destaca por abordar as transformações que a cadeia dos famosos pode operar, seja para aqueles que encontraram na prisão um espaço de arrependimento e mudança, quanto para os que parecem incapazes de evoluir e apenas lutam para sobreviver e manter o respeito. Ainda assim, Tremembé enfrenta um dos grandes dilemas dos True Crimes: é impossível realizar uma dramatização totalmente documental e igualmente difícil evitar a romantização dos criminosos. Em alguns momentos, a série cede a uma visão que humaniza demais seus retratados, o que pode gerar empatia perigosa, sobretudo quando se considera que muitos deles ainda despertam idolatria. Mesmo assim, Tremembé encerra sua temporada com um gancho instigante, deixando um público órfão e ansioso por novidades. No fim, fica claro que há muito mais a ser contado, e que a força da série está justamente em compreender o que cada um desses detentos pensa e como enxerga essa nova fase de suas vidas.

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

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