Crítica | Truque de Mestre: O 3º Ato (Now You See Me: Now You Don’t)

Nota
3.5

Sob o comando do novo diretor, Ruben Fleischer (Venom), Truque de Mestre: O 3º Ato é um filme que assume o risco de ser maior e mais ousado, uma declaração de que a franquia de ilusionismo e assalto ainda tem fôlego. Lançado anos após o segundo filme, O 3º Ato tinha a difícil missão de superar as expectativas e, principalmente, justificar a complexidade de sua trama. O resultado é um filme inegavelmente vibrante e cheio de energia, que faz o espectador flutuar no ritmo da ação, embora sua obsessão por reviravoltas possa comprometer a lógica da história.

​O motor emocional que impulsiona o filme é o reencontro do elenco principal de ilusionistas. Jesse Eisenberg (J. Daniel Atlas), Woody Harrelson (Merritt McKinney), Dave Franco (Jack Wilder) e Isla Fisher (Henley Reeves) estão de volta, compondo o quarteto original que se tornou lenda ao ludibriar o público e as autoridades. A química natural entre esses atores é a verdadeira âncora do filme. Eles conseguem manter o público investido e disposto a aceitar as acrobacias narrativas mais absurdas, enquanto buscam se esconder da equipe do FBI que os persegue desde o início da saga. A direção de Fleischer acerta ao priorizar o tempo de tela para a interação entre eles, lembrando a audiência que, antes dos truques, o charme da saga reside na dinâmica familiar disfuncional dos Cavaleiros.

​A narrativa desta vez se concentra em uma missão com dois objetivos claros: roubar o lendário Diamante Coração e, ao mesmo tempo, expor a criminosa Veronika Vanderberg (Rosamund Pike). Pike assume o papel de uma poderosa executiva do setor de diamantes, cuja empresa é acusada de lavar dinheiro para traficantes e chefes de guerra. O golpe da vez envolve o Cavaleiros e, crucialmente, uma nova geração de mágicos. O filme se beneficia de um senso de urgência, pois a luta não é apenas por dinheiro ou liberdade, mas por justiça social, um tema que a franquia adota como justificativa moral para seus assaltos elaborados.

​Uma jogada inteligente da produção foi a inclusão da “Nova Geração” de ilusionistas, representados pelos talentos de Justice Smith, Dominic Sessa e a jovem estrela em ascensão, Ariana Greenblatt. Estes novos personagens não são apenas coadjuvantes; eles sinalizam a evolução da própria natureza da magia, trazendo habilidades mais alinhadas à tecnologia avançada da era digital e à destreza física. Greenblatt, em particular, assume um papel que exige agilidade e carisma, injetando uma energia renovada e um senso de parkour à equipe, demonstrando que a magia moderna exige também muita ação. Essa adição injeta uma dinâmica de mentor-discípulo e renovação que se justifica plenamente no contexto da franquia. É uma forma esperta de o roteiro garantir que os truques não pareçam datados e de honrar o tema de que o ilusionismo deve evoluir com o mundo. O elenco ainda é reforçado pela presença notável de Rosamund Pike, que entrega uma antagonista fria e calculista, e pelo retorno de Morgan Freeman (Thaddeus Bradley), cuja presença sempre levanta a questão: será que a mágica final será a explicação ou mais um engano?

​O que realmente funciona em O 3º Ato é a Coreografia da Magia. Fleischer entrega sequências de assalto e ilusão que são visualmente espetaculares e que cumprem a promessa de serem maiores e mais elaboradas do que o filme anterior. As perseguições e os truques de desaparecimento são executados com uma escala de cinema blockbuster, e a cinematografia é ágil e estilosa. As cenas onde os Cavaleiros precisam se coordenar em tempo real, usando suas habilidades individuais de mentalismo, manipulação e destreza, são o ápice do entretenimento de alto impacto. Para quem busca uma descarga de adrenalina visual, o filme entrega exatamente isso, e a forma como ele esconde a técnica por trás do espetáculo é, ironicamente, a mágica mais honesta que ele oferece.

​No entanto, o ponto mais sensível do filme — e onde ele tropeça — é o Roteiro. A franquia sempre se baseou na regra de que quanto maior o truque, mais complicada é a explicação, mas aqui, essa regra é levada ao ponto da saturação. O filme está obsessivamente focado em entregar múltiplas camadas de reviravoltas, a ponto de o público se sentir menos iludido e mais confuso pelas constantes viradas. A coerência da trama é sacrificada para garantir o choque da próxima grande revelação. As motivações dos vilões, que incluem o retorno de Daniel Radcliffe no papel de Walter Mabry, são obscurecidas por tantos plot twists que a audiência pode ter dificuldade em se conectar emocionalmente com o perigo. Há momentos em que o filme parece mais preocupado em ser “explicado” através de diálogos expositivos do que em contar uma história que se sustenta sozinha.
​Apesar das deficiências do roteiro, o filme cumpre a missão de dar um encerramento satisfatório ao arco da saga. O tom geral, no entanto, é leve e focado no divertimento, o que o estabelece como um produto de puro escapismo. Para os fãs dedicados, é um encerramento que celebra a união do grupo e a vitória da magia.

​Em conclusão, Truque de Mestre: O 3º Ato é um filme que entrega o espetáculo: um blockbuster de ilusionismo visualmente deslumbrante e embalado pelo carisma do elenco. Ele é recomendado para quem busca um entretenimento de ritmo acelerado e está disposto a relaxar a mente para desfrutar da ilusão. É um encerramento que, embora não seja perfeito em sua narrativa, garante uma saída grandiosa para os Cavaleiros, reforçando a ideia de que a arte da mágica, às vezes, é mais divertida quando não tentamos entender todos os seus segredos.

 

Pernambucano, jogador de RPG, pesquisador nas áreas de gênero, diversidade e bioética, comentarista no X, fã incontestável de Junji Ito e Naoki Urasawa. Ah, também sou advogado e me arrisco como crítico nas horas vagas.

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