Crítica | Turma da Mônica Jovem: Reflexos do Medo

Nota
2

“A gente nunca vai se separar, onde um for todo mundo vai, independente de qualquer coisa. Fechou?”

Um grande cometa cruza os céus e marca simbolicamente o início de um novo ciclo na vida da Turma da Mônica Jovem, agora prestes a enfrentar o primeiro ano do ensino médio. Cascão aprimora cada vez mais suas habilidades de parkour, Magali se dedica ao treinamento com sua tia Nena na misteriosa Ordem dos Cozinheiros, que funciona tanto como escola de culinária quanto como ordem mágica, enquanto Milena mergulha em estudos científicos avançados. Mônica, por sua vez, está determinada a encerrar de vez sua longa rivalidade com Carmem, mesmo que Cebola e ela continuem incapazes de admitir o que sentem um pelo outro. Em meio aos desafios típicos da adolescência, algo extraordinário acontece: um espelho de obsidiana levado ao Museu do Limoeiro anos atrás por Lindolfo desperta sob a influência do fenômeno cósmico, libertando o temido Cabeça de Balde, até então tratado apenas como uma lenda local.

Com sua produção oficializada em setembro de 2016, o primeiro longa da Turma da Mônica Jovem seria dirigido por Christiano Metri e tinha lançamento previsto para o primeiro semestre de 2019. Porém, os planos não avançaram como esperado. No início de 2020, os roteiristas Rodrigo Goulart e Sabrina Garcia foram contratados para desenvolver um novo roteiro baseado no arco Supersaga do Fim do Mundo, a mais popular saga das revistas TMJ. Entretanto, divergências internas levaram a dupla a reestruturar por completo o projeto, criando uma história inédita que preservasse o clima de suspense e buscasse inspiração na série Stranger Things. As mudanças criativas acabaram resultando na saída dos dois roteiristas, o que abriu espaço para Regina Negrini assumir o desenvolvimento de uma nova trama. A narrativa resultante, porém, se mostra frágil em vários momentos, e a presença de Milena perde grande parte do sentido dentro da trama, especialmente pela forma como os roteiros de Turma da Mônica parecem insistir em forçá-la a ocupar um papel de quinta protagonista.

Trazendo o ponto de vista de alguém que acompanhou diversas HQs da TMJ, é extremamente satisfatório encontrar a quantidade de easter-eggs espalhados pelo filme, evidenciando o cuidado da produção em garantir que a história se encaixa ferozmente no universo das revistas. No museu, há quadros de Soranin e Kainin, além de uma escultura da Jumenta Voadora; já no protesto à fantasia, figurantes surgem vestidos como personagens de várias sagas, como Penadinho, Turma da Mata e Piteco. Entre os protagonistas, Cebola homenageia Tuxedo Mask, Mônica surge como Frida Kahlo (assim como na ação Donas da Rua) e Cascão aparece como Capitão Pitoco. Ainda assim, considerando a perfeição da Supersaga do Fim do Mundo e até de arcos menores presentes nas HQs, fica evidente que este roteiro poderia ter sido muito mais sólido caso tivesse sido desenvolvido pelos grandes roteiristas das revistas. Faltou um Emerson Bernardo de Abreu para entregar um enredo que unisse suspense e a essência da Turma da Mônica. O elenco já causou estranhamento desde o anúncio, especialmente por descartar o elenco de Turma da Mônica: Lições, que tinha idade ideal para assumir a versão Jovem, e essa troca cobrou seu preço. O novo grupo parece inicialmente desconexo de seus personagens, demorando a captar o espírito deles. Apenas Bianca Paiva e Theo Salomão, como Magali e Cascão, realmente se destacam ao traduzir com naturalidade uma Magali que começa a lidar com magia e ainda teme seus mistérios, e um Cascão cheio de atitude, que protagoniza ótimas cenas de parkour. Por fim, em um universo onde existem vilões como a Jumenta Voadora e A Serpente, a escolha pelo Cabeça de Balde soa fraca e desalinhada com a premissa que o longa se propõe a construir.

Quando o foco recai sobre a atuação de Sophia Valverde e Xande Valois, fica evidente um dos maiores pontos fracos do longa. A interpretação de Sophia, infelizmente, se destaca como uma das piores do quarteto tradicional; não que se espere uma performance digna de Oscar em uma adaptação da Turma da Mônica Jovem, mas existe um nível mínimo de entrega dramática necessário para que esses personagens funcionem em tela, e o filme não alcança esse patamar. Sua Mônica carece de intensidade, carisma e firmeza, elementos essenciais para traduzir a líder icônica que os fãs conhecem das HQs. Xande Valois, por sua vez, até tenta suprir esse desequilíbrio, apresentando momentos mais naturais, porém ainda longe do ideal para carregar o peso emocional que o Cebola exige. Turma da Mônica Jovem: Reflexos do Medo tenta abraçar muitos caminhos ao mesmo tempo, mas acaba falhando justamente nos pilares que deveriam sustentar sua força: roteiro, coesão e direção de elenco. Embora existam acertos pontuais, como a ambientação cuidadosa, os easter-eggs que agradam aos leitores das HQs e o destaque positivo de Bianca Paiva e Theo Salomão, o conjunto final não sustenta a promessa de um grande início para a fase jovem da Turma. A história é frágil, o vilão é pouco inspirado, o novo elenco não encontra o espírito dos personagens e a condução dramática não acompanha a maturidade que a adaptação exige. O filme é ambicioso, mas não entrega a grandeza que pretende, deixando evidente o quanto ele poderia ter sido melhor nas mãos certas. O resultado é uma obra irregular, que desperdiça oportunidades e conquista menos do que deveria.

“A gente junto depois de quase dois meses que pareceram uma eternidade…”

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

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