Nota
“Senhoras e senhores, meninos e meninas, estão prontos para começar o show?”
Há muito sobre o passado que ainda não veio à luz. A filial da Pizzaria Freddy Fazbear onde Mike Schmidt trabalhou como segurança era apenas um dos muitos pontos da rede, e Vanessa Shelly continua escondendo segredos profundos sobre sua história e sobre a de seu pai, William Afton. Porém, nenhum desses mistérios é tão inquietante quanto o que aconteceu na matriz da pizzaria em 1982, quando Charlotte foi assassinada e acabou conectando sua alma a Marionette, o primeiro espírito aprisionado no estabelecimento. Duas décadas depois, um incidente acaba libertando Marionette, que dá início a um plano de vingança moldado pela negligência dos pais e pela dor que carrega desde então. Em meio a esse despertar sombrio, Abby Schmidt, a irmã mais nova de Mike, torna-se o canal perfeito para essa retaliação, o que desencadeia uma nova onda de horrores e expõe segredos obscuros que cercam o passado da família Afton.

Apesar de truncado e extremamente dependente da lore dos jogos, Five Nights at Freddy’s – O Pesadelo Sem Fim, adaptação do primeiro título da franquia, tornou-se um sucesso comercial expressivo, arrecadando US$ 297 milhões a partir de um orçamento de apenas US$ 20 milhões e consolidando-se como o filme de maior bilheteria da Blumhouse. Ainda em agosto de 2018, Scott Cawthon já havia afirmado que o desempenho do primeiro longa definiria a possibilidade de uma trilogia, e esse potencial foi rapidamente confirmado após o impacto nas bilheterias, sendo reforçado em janeiro de 2023 quando Matthew Lillard revelou, no podcast WeeklyMTG, ter assinado contrato para três filmes. Adaptar FNAF 2, no entanto, representava um desafio particular: o jogo se passa anos antes do primeiro e é totalmente voltado a expandir o passado da franquia, enquanto o segundo filme já tinha garantidos Josh Hutcherson, Elizabeth Lail, Piper Rubio e Lillard reprisando seus papéis. Mesmo assim, a diretora e co-roteirista Emma Tammi abraçou o obstáculo com coragem, e seu trabalho em parceria com Cawthon e Seth Cuddeback surpreende ao conseguir integrar o passado, incorporar diversos elementos do jogo e da mitologia e ainda manter o quarteto como núcleo emocional da narrativa.
Hutcherson entrega um Mike mais apagado, prejudicado por um roteiro que não lhe dá espaço para crescer e acaba relegando o personagem a segundo plano. Ainda assim, fica evidente sua tentativa de equilibrar a responsabilidade de cuidar da irmã enquanto encara os traumas deixados por Freddy, Bonnie, Chica e Foxy. Lail, por sua vez, ganha bem mais destaque, já que sua presença nos eventos de 1982 é diretamente ligada à origem da tragédia: ela testemunhou a morte de Charlotte e ajudou a conter Marionette, e é justamente esse passado mal resolvido que volta com força total agora que o espírito enfim se liberta. Abby surge como um dos pontos mais frágeis do filme, freando a evolução de Rubio; a personagem toma decisões ingênuas demais, confiando rapidamente em Toy Chica e se tornando presa fácil no jogo manipulatório da Marionette.
Falando em Toy Chica, o filme abraça de vez a expansão do panteão de animatrônicos, seguindo a lógica dos jogos e permitindo que a Jim Henson’s Creature Shop brilhe ao trazer para o live-action um desfile de bonecos impressionantes. Balloon Boy ganha mais tempo em cena, o quarteto Toy e o quarteto Withered aparecem em peso, e ainda há uma rápida, mas marcante, aparição da Circus Baby. Lillard surge menos do que no primeiro longa, mas seu William Afton continua carregado de presença e ameaça, abrindo espaço para a entrada de Freddy Carter, que interpreta Michael, o segurança noturno da pizzaria original. É ele quem traz peças fundamentais para o novo quebra-cabeça narrativo. Skeet Ulrich também deixa sua marca como Henry, pai de Charlotte e guardião de uma revelação que altera completamente o rumo da história.

Com 104 minutos, Five Nights at Freddy’s 2 não perde tempo e entrega uma narrativa mais dinâmica que seu antecessor, mesmo tropeçando em alguns desenvolvimentos de personagens. A inclusão da FazFest se mostra uma das decisões mais interessantes do roteiro, funcionando não apenas como elemento de expansão do universo, mas também como um elo narrativo que prepara terreno para o inevitável terceiro filme. O longa também abraça sem pudor o fanservice, especialmente em uma das sequências mais memoráveis: quando Mike assume o posto no escritório original da pizzaria. Ali, o filme reproduz com fidelidade a experiência dos jogos, desde o espaço sem portas e a lanterna única como ferramenta de sobrevivência até o uso da máscara do Freddy como último recurso para enganar os animatrônicos que se aproximam. A ambientação fica ainda mais rica com o retorno dos sons clássicos, incluindo as risadas e os emblemáticos “hello/hi” do Balloon Boy, além da voz mecânica do FazTalker, que rendem uma imersão genuína aos fãs. No fim, apesar das fragilidades narrativas, o filme se sustenta como um capítulo mais ousado e consciente do potencial do material original, equilibrando expansão de lore, terror acessível e um carinho evidente pelos fãs da franquia.
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.