Crítica | A Única Saída (No Other Choice)

Nota
5

Yoo Man-soo (Lee Byung-hun) tem uma vida perfeita ao lado da sua família, com seus dois filhos, dois cachorros, dois carros e uma casa perfeita para ele e sua esposa, que nem sequer precisa trabalhar, já que seu marido é tão bem sucedido. De repente, depois de uma demissão em massa, ele se vê desolado. Embora a empresa crie esforços com palestras motivacionais, atestando que todos eles irão conseguir se empregar em três meses, isso não é nem perto do suficiente para acalmar Man-soo. Mesmo com 10 anos de experiência na indústria do papel, após os três meses, ele só consegue emprego como estoquista em supermercado, mas ainda continua indo a diversas entrevistas para conseguir um emprego melhor, mas sem sucesso. Quando sua mulher finalmente lhe dá um ultimato, por começar a trabalhar e vender coisas da casa para baixar o padrão de vida que eles levam, ele se vê sem saída. Para ele não há outra escolha senão eliminar a concorrência dos seus antigos colegas de trabalho. Do diretor Park Chan-Wook, sua nova obra, No Other Choice, é mais um trabalho incrível que reúne um bom roteiro, uma boa fotografia e, sobretudo, uma boa edição. 

Sendo um dos destaques do Globo de Ouro de 2026, No Other Choice recebeu três indicações em Melhor Filme de Comédia ou Musical, de Língua não-inglesa e para Melhor Ator de Comédia ou Musical pela performance de Lee Byung-hun, e promete também ter grande destaque no Oscar 2026. O longa segue o padrão das histórias de Park Chan-Wook, com um roteiro bem denso e elaborado, cheio de idas e vindas, mas sobretudo com uma história super envolvente. O que se destaca mais em No Other Choice foi a escolha, dessa vez, de trazer um viés cômico para a obra, que por si só já é bem densa e cheia de suspense, mas que consegue funcionar muito bem para a proposta do enredo.

A surpresa maior foi a performance de Lee Byung-hun, que já se mostrava um ator muito versátil por trabalhos anteriores com o próprio Park Chan-wook, assim como sendo o grande antagonista do sucesso da Netflix, Round 6, ainda mais nas últimas temporadas, em que ele consegue ir de mocinho para vilão em poucos episódios de diferença. Essa versatilidade é muito importante para incorporar Yoo Man-soo, que tem uma dualidade enorme dentro dele, por um lado um instinto selvagem e insaciável de querer matar seus concorrentes e por outro o seu lado humano ainda existente, mas que por muitas vezes acaba sendo o seu lado covarde e hesitante, e aí que em muitos momentos mora o seu lado cômico, atrelado claro a um texto excelente que corrobora ainda mais com os momentos desse “serial killer amador”, e que rende cenas hilárias mesmo em momentos tensos. 

Mantendo sua qualidade técnica, o diretor continua com jogos de câmera bem característicos que nos faz adentrar ainda mais o clima de suspense, com um estilo que é bem inspirado em nomes como Kubrick. Mas onde o diretor se supera é de fato na edição de seu novo longa, que está ainda mais inovadora. Na segunda metade do filme, a edição começa a ter momentos mais experimentais, onde ela brinca com reflexos, cortes entre duas cenas e até proporções dos personagens, trazendo cenas únicas e totalmente criativas. 

Inovador, o mais novo longa do diretor coreano Park Chan-Wook nos deixa apreensivos até o último segundo. O cinema coreano tende a ser bem crítico à sociedade como um todo, sobretudo as dinâmicas capitalistas que nos cercam a todo momento. Park Chan-wook transforma o desespero de toda uma pressão social e econômica de parecer e se manter em uma vida perfeita em um espetáculo ácido e irônico que sobretudo escancara a fragilidade e covardia de seu personagem principal. O suspense banhado em risadas de nervoso, cria uma atmosfera em sátira para uma trama que diverte incomodando, já que os temas discutidos são bem pesados para todos os envolvidos. A performance de Lee Byung-hun é o grande destaque do filme, por travar essa luta entre dois Man-soo, o covarde e o animal, que é preso dentro de uma luta que ele mesmo se colocou ali, e tudo isso de uma forma inteligentíssima dessa colaboração entre Byung-hun e Chan-Wook.

 

Ilustradora, Designer de Moda, Criadora de conteúdo e Drag Queen.

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