Review | Beleza Fatal [Season 1]

Nota
4.5

“Não basta um Brasil em harmonia, eu quero um Brasil harmonizado”

Sofia ainda era criança quando viu sua mãe, Cléo, ser presa injustamente e morrer na cadeia por culpa da própria prima, Lola, uma mulher disposta a qualquer coisa para enriquecer. Sem ter para onde ir, Sofia é acolhida pela família Paixão, liderada pela trambiqueira Elvira, que vive o luto pela morte da filha, Rebeca, vítima de uma cirurgia plástica mal-sucedida. O que ninguém sabe é que a jovem aspirante a modelo morreu na clínica onde Lola trabalha, em um procedimento conduzido por Rog Ferreira e Benjamin Argento. O caso é arquivado após Átila Argento, poderoso cirurgião plástico e pai de Benjamin, comprar o silêncio da investigadora Viviane Martins. Em meio a chantagens, sedução e ambição, Lola se casa com Benjamin e se torna milionária, até cruzar novamente o caminho de Sofia, agora sob a identidade de Júlia Guimarães, pronta para executar sua vingança.

Criada e escrita por Raphael Montes, em colaboração com Mariana Torres, Victor Atherino, Rafael Souza-Ribeiro e Luiza Yabrudi, Beleza Fatal marca a primeira telenovela brasileira via streaming produzida exclusivamente para a HBO Max, fruto do trabalho de Silvio de Abreu como supervisor do núcleo de novelas da plataforma. Arrebatando atenções de forma inesperada, a produção foi rapidamente aclamada por abordar temas sensíveis ligados à autoestima e por resgatar enredos mais ousados, cada vez mais raros na TV aberta. Não à toa, muitos a compararam às novelas da Globo em seu período de maior prestígio. Ainda assim, a obra não escapou de críticas, especialmente por seus excessos e pela velocidade com que alguns núcleos se resolvem, em contraste com a lentidão de outros. Parte disso parece inevitável, já que a novela foi inteiramente gravada antes da estreia, impossibilitando ajustes baseados na resposta do público. Mesmo assim, Beleza Fatal se consolidou como um raro fenômeno, conquistando tanto o público jovem nas redes sociais quanto espectadores mais tradicionais.

“Eu sou streaming e seu pai é a TV aberta, entendeu? TV aberta está morrendo, e eu estou aqui óh, vivíssima”.

O protagonismo de Beleza Fatal recai sobre três grandes potências da teledramaturgia brasileira: Camila Pitanga, Camila Queiroz e Giovanna Antonelli. Camila Pitanga, no papel de Lola, entrega uma vilã irresistível, daquelas que todos amam odiar. Ela é inescrupulosa e voraz, mas também se torna um ícone à frente da sua clínica de estética, Lolaland, onde enfrenta os poderosos Argento com uma coragem inabalável. Sua presença é tão forte que suas frases e memes ganham vida própria, resgatando até referências a sua personagem Bebel, de Paraíso Tropical. Camila Queiroz, por sua vez, constrói uma Sofia/Júlia com uma força interna impressionante, equilibrando sua sede de vingança com a fragilidade de quem se perde ao tentar se transformar. Sua jornada na linha tênue entre o bem e o mal torna-se cada vez mais instável, levando-a a ferir aqueles que a acolheram. Já Giovanna Antonelli brilha como Elvira, trazendo para a tela sua habilidade tanto no drama quanto na comédia, com uma interpretação magistral de uma mãe suburbana e trambiqueira que se impõe como um exemplo de poder feminino, conduzindo o enredo com grande maestria. O elenco se completa com grandes nomes, como Caio Blat, que interpreta um Benjamin frágil e revoltado, Marcelo Serrado, vivendo o espetaculoso e inescrupuloso Rog, Herson Capri no papel do poderoso e surpreendente Átila, Julia Stockler como a reprimida e constantemente menosprezada Gisela, e Kiara Felippe encarnando a batalhadora Andrea. São personagens que ampliam o alcance dramático da narrativa e contribuem diretamente para a força do conjunto, reforçando a versatilidade de temas que a novela ousa debater.

Com uma estética calculadamente exagerada e uma fotografia polida, a produção entrega cenários luxuosos e uma direção de arte que transforma clínicas, mansões e espaços suburbanos em extensões diretas do conflito entre aparência e verdade que move a narrativa. O ritmo, embora irregular em alguns momentos, funciona melhor do que em muitas novelas tradicionais, acelerando quando o jogo de chantagem e vingança pede urgência e desacelerando nos núcleos mais emocionais, ainda que nem sempre com o mesmo equilíbrio. Há capítulos que resolvem conflitos de forma apressada, enquanto outros prolongam situações além do necessário, mas isso não compromete a experiência como um todo. No fim, Beleza Fatal se impõe como uma novela consciente de sua identidade, que abraça o melodrama, o thriller e o comentário social sem medo de parecer exagerada, entregando um produto envolvente, popular e surpreendentemente coeso dentro de sua proposta.

“A sua sorte é que eu me dopei de calmante, fada sensata, senão eu voava no teu pescoço”.

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

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