Nota
“Ser ou não ser? Eis a questão: será mais nobre.”
Obrigado a trabalhar para cobrir as dívidas de seu pai, Will (Paul Mescal) acabou conhecendo o amor da sua vida enquanto ensinava latim para as crianças de uma família. Agnes (Jessie Buckley) tinha uma reputação de bruxa, por viver na floresta e por saber muito sobre ervas, ensinamentos passados da sua mãe para ela e seu irmão, mas mesmo com tantos boatos sobre ela, isso não impediu Will de apaixonar-se por ela e tentar disputar suas duas famílias para viver esse amor. A paixão ardente dos dois, resultou no nascimento de Susanna (Bodhi Rae Breathnach), a primeira filha do casal, e que os ajudou a finalmente se casarem e viverem em uma casa só para a sua nova família. Apesar da relação péssima de Will com seu pai, ele tentou ao máximo dar o melhor para sua família, que seguiu aumentando após o nascimento dos gêmeos: Hamnet (Jacobi Jupe) e Judith (Olivia Lynes). Mas é quando Will se aventura em Londres para conseguir uma vida melhor para sua família que tudo pode ir rio abaixo, com a chegada da peste negra, a vida da família pode tomar um rumo que eles não esperam. A poderosa história de amor, baseada no livro de Maggie O’Farrell e dirigida pela ganhadora do Oscar Chloé Zhao, Hamnet imagina como foi a criação de uma das obras mais importantes da literatura mundial, o clássico de Shakespeare, Hamlet (1623).

A diretora ganhadora do Oscar em 2021, Chloé Zhao, volta agora com um projeto ambicioso mas muito bem executado. Garantindo 6 indicações ao Globo de Ouro, Hamnet é sem dúvidas um dos destaques desse novo ano de premiações, especialmente nas categorias principais de Melhor Atriz e Ator Coadjuvante e Melhor Diretor. Sendo o quinto longa da diretora, que tem trabalhos datados desde 2008 e de 2015, quando de fato se aventurou nos longas metragens, Zhao vem criando cada vez mais o seu estilo enquanto diretora, trazendo ainda mais da sua identidade para filmes que se destoam completamente de seu background. O seu último trabalho em Eternos (2021) com certeza lhe deu uma estrutura de como trabalhar em grandes produções, com grandes cenários, grandes figurinos, que é o que Hamnet também se propõe. Com uma estrutura de 35 milhões de dólares, cerca de sete vezes mais do que ela precisou para seu filme ganhador do Oscar, Nomadland, seu novo trabalho é sem dúvidas um marco visual em sua carreira por trabalhar tão bem os cenários e figurinos de época.
Fugindo também de suas últimas produções, onde o drama era mais contido como de fato foi em Nomadland, a carga dramática de Hamnet é agora muito maior para os padrões de Chloé Zhao, mas ela consegue trazer os atores para uma atuação muito mais realista do que outras produções dramáticas que visam puramente levar um Oscar de atuação. Apesar do William Shakespeare ser o centro da história, sua personagem principal é sem dúvida a Agnes, vivida brilhantemente pela atriz Jesse Buckley, que carrega todas as emoções do filme nas costas. Com uma trajetória crescente, a atriz vai aumentando aos poucos sua carga dramática, até as cenas mais emocionantes no último terço do filme, sem precisar de artifícios extravagantes como gritos e berros, a atriz nos transporta para a sua dor de uma forma muito singular. Mas um de seus momentos mais emocionantes se dá no clímax do filme, onde ela mal precisa chorar para emocionar, já que ela entra em paz com o seu marido e finalmente o entende através da arte, em uma sequência de cenas em que sua revolta se transforma em compaixão, saudade e aceitação, um trabalho muito difícil já que a atriz consegue transmitir todas essas emoções em silêncio.

Apesar de ter um destaque, Paul Mescal é ofuscado pelo seu filho na trama, o jovem Jacobi Jupe, que é extremamente cativante. Dirigir crianças em um filme sempre é um desafio, e a diretora dirige muito bem as desse filme, em especial o Jacobi, que também tem seu mérito por, apesar de tão novo, conseguir fazer uma atuação num nível adulto e muito profissional. Mas falando de Paul Mescal, que inclusive está disputando o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante, realmente faz juz ao título: coadjuvante. Sua performance é discreta, sem nenhum exagero, mas que falta impacto, especialmente em cenas tão marcantes quanto a da citação clássica em que Shakespeare recita o seu “Ser ou não ser”. Cena essa que acompanhou a pouca energia de Mescal inclusive esteticamente, já que um filme que é naturalmente claro, mesmo não sendo tão alegre, trouxe uma cena tão escura, com baixíssima visibilidade, que não ajuda a sua performance de forma alguma.
Ainda assim, apesar das cenas com contraste e luminosidades baixas, o filme honra a sua pré-indicação ao Oscar de Melhor Fotografia. Com muitas cenas de respiro, com o contemplativo da floresta que é tão presente dentro desse universo que a Agnes está inserida, a fotografia de Hamnet é colorida, muito bem pensada em termos da paleta de cores escolhida e sobretudo conversa muito bem com a época e os espaços que ela está inserida. Tudo isso atrelado a uma direção de arte coesa e grandiosa, que reconstitui os teatros e a cidade de Londres da época de uma forma muito convincente, nos transportando para os tempos de Shakespeare.

Hamnet foge dos biográficos clichês, trazendo questionamentos sobre o próprio dilema humano diante da finitude. A diretora Chloé Zhao consegue fazer o que o diretor Pablo Larraín tenta há anos sem sucesso: fazer uma biografia imaginativa onde o conceito é trazer os sentimentos dessas figuras históricas à tona. Zhao constrói um filme que permeia entre o íntimo e o grandioso, entre a floresta silenciosa de Agnes e os palcos agitados de Will em Londres, trazendo duas formas de lidar com a finitude. Para Agnes, o seu misticismo que permeia a sua vida desde sempre, que foi seu aliado e que agora tem um papel a mais na sua vida, a direção usa desse misticismo de uma forma muito inovadora, sem artifícios digitais ou técnicos para ilustrar, trazendo jogos de câmeras e a atuação de todos principalmente como o maior elemento para caracterizar isso. Já para Will, a arte é o seu elemento principal, já que a famosa pergunta “Ser ou não ser?” ecoa como dilema existencial que resulta numa forma dele encontrar a sua força em um processo de cura através da arte.