Nota
“Algum liberalzinho vai lançar um podcast sobre tudo isso, e quando a gente se der conta, versões idiotas de todos nós vão estar na Netflix.”
Depois de agredir um diácono de forma grosseira, o padre Jud Duplenticy, um ex-boxeador que se tornou sacerdote católico no interior do estado de Nova York, é transferido para servir como pároco assistente da igreja de Nossa Senhora da Perpétua Fortaleza, uma paróquia rural comandada pelo Monsenhor Jefferson Wicks. Neto do Reverendo Prentice Wicks, fundador da igreja, Jefferson carrega um passado marcado por traumas familiares, incluindo a promessa feita a sua mãe, Grace, de que receberia uma herança que jamais foi encontrada. Desde a chegada de Jud, a relação entre os dois se mostra tensa e conflituosa, o que torna o novo padre o principal suspeito quando, durante uma missa da Sexta-Feira Santa, o Monsenhor é encontrado morto em um depósito próximo ao púlpito, esfaqueado pelas costas. Diante do crime, cabe ao detetive Benoit Blanc investigar o que pode ser o mistério mais delicado de sua carreira, mergulhando nos segredos de uma pequena cidade, com a ajuda inesperada do próprio Jud e da chefe de polícia local, Geraldine Scott.

Escrito e dirigido por Rian Johnson, Vivo ou Morto é uma sequência independente de Glass Onion (2022) e o terceiro filme da franquia Knives Out. O longa teve sua estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Toronto em 6 de setembro de 2025, chegou aos cinemas em 26 de novembro e foi distribuído mundialmente pela Netflix em 12 de dezembro de 2025. Seguindo o padrão de qualidade da série, a produção aposta novamente em um elenco chamativo, reunindo nomes como Josh O’Connor, Glenn Close, Josh Brolin, Mila Kunis, Jeremy Renner, Kerry Washington, Andrew Scott, Cailee Spaeny, Daryl McCormack e Thomas Haden Church ao lado de Daniel Craig. Essa constelação de atores já sinaliza uma produção ambiciosa e reforça a expectativa em torno do filme, especialmente considerando o histórico da franquia em criar mistérios inventivos e cheios de personalidade. Ainda que Johnson mantenha sua estrutura característica, com um início mais lento e minucioso, que pode afastar parte do público menos paciente, o retorno de Benoit Blanc se destaca por colocar o detetive em um cenário radicalmente diferente dos anteriores, explorando novas dinâmicas sociais, religiosas e morais, e ampliando o alcance temático da saga sem abrir mão de sua identidade.
Com influências claras de obras de Edgar Allan Poe, John Dickson Carr e Agatha Christie, o longa faz questão de evidenciar como toda a trama do assassinato dialoga diretamente com a tradição do romance policial clássico, algo que surpreende principalmente quando Benoit Blanc parece dar um passo para trás e permitir que o padre Jud assuma momentaneamente o protagonismo da narrativa. Essa escolha abre espaço para Josh O’Connor entregar uma atuação envolvente e ambígua, capaz de nos manter em dúvida constante sobre sua possível culpa no assassinato. Daniel Craig, por sua vez, demonstra uma evolução notável ao interpretar um Benoit mais contido e observador, que domina a investigação de forma discreta, sem a necessidade de roubar a cena a todo momento. Essa abordagem permite que o filme explore com mais profundidade o passado de Jud e Wicks, além de construir com cuidado as motivações que culminam no crime. A vivência pessoal de Rian Johnson com a educação religiosa no evangelicalismo contribui de forma decisiva para a construção do universo da paróquia de Nossa Senhora da Perpétua Fortaleza, despertando interesse genuíno em cada membro da comunidade. Figuras como a devota vivida por Glenn Close, o médico interpretado por Jeremy Renner, a advogada marcada por conflitos familiares de Kerry Washington, o escritor fracassado de Andrew Scott, a ex-violoncelista com deficiência de Cailee Spaeny e o aspirante a político conservador de Daryl McCormack são personagens densos, cheios de camadas, cujos segredos e motivações se entrelaçam à investigação e os colocam, ainda que de forma sutil, sob suspeita constante.

No fechamento, Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out deixa claro que a saga de Benoit Blanc já não busca repetir a leveza quase lúdica de Entre Facas e Segredos. Se Glass Onion apostava mais na sátira e no entretenimento imediato, este terceiro capítulo segue o caminho oposto, mais denso, introspectivo e interessado em simbolismos do que propriamente na investigação clássica. Isso cobra seu preço: apesar de um elenco poderoso, poucos personagens recebem desenvolvimento real, com exceção marcante do Padre Jud, que se torna o verdadeiro eixo emocional e narrativo do filme. Ainda assim, a experiência não decepciona. A construção visual da igreja, o uso da luz em contraste entre fé e descrença e as conexões bíblicas enriquecem a atmosfera e revelam um cuidado temático raro no gênero. A revelação final do assassinato é intensa, emocionalmente poderosa e surpreendentemente humana, sendo a primeira vez na franquia em que o assassino narra sua própria história de forma tão direta. Não é um filme que busca agradar a todos, nem que tenta ser constantemente surpreendente, mas entrega um mistério sólido, maduro e reflexivo.
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.