Host Indica | Perdidos no Pantanal [CBM #9 e #10]

Surge uma grande oportunidade de estágio. O dono de uma grande fazenda de criação de jacarés-do-pantanal está em busca de estudantes de Agronomia do primeiro ano da UFA (Universidade Federal de Agronomia) para trabalhar em sua propriedade, um local onde esses animais, que estão quase extintos, são criados em cativeiro como parte de um esforço para reverter o iminente perigo de extinção. A vaga parece perfeita para Chico Bento, que se inscreve junto de seus amigos Violette, Yo, Zé da Rússia, Bombeta, Vespa e Ferrugem. Após uma viagem que já deixa Chico desesperado por precisar encarar um monomotor, o grupo acaba sofrendo um acidente (causado por uma sombra que segura o avião e o força a voar rente ao chão) e cai em meio ao Pantanal. Agora, eles precisam lidar com um mistério sombrio que envolve a região, com criaturas monstruosas que passam a persegui-los, além de um encontro enigmático com Mariara, uma jovem misteriosa encontrada na floresta, fraca e sem memória.

Com roteiro de Petra Leão, as edições #9 e #10 de Chico Bento Moço surpreendem ao presentear os leitores com uma releitura muito própria de Lost, recheada de referências que capturam facilmente os fãs da série, como a sombra assumindo o papel de ameaça constante e o take do olho de Chico se abrindo, para logo depois ele ser visto caído em meio ao matagal. Ao mesmo tempo, a narrativa consegue construir sua própria identidade ao transformar essa aventura em um percurso quase didático pelo Pantanal, incorporando fotos cedidas pela WWF-Brasil em meio aos desenhos, o que fortalece a sensação de realidade e urgência daquele ecossistema. Desde cedo, a trama deixa claro que estamos prestes a encontrar o Caipora como um forte obstáculo. O personagem já é destacado na contracapa da primeira parte da história e carrega consigo todo o peso do imaginário folclórico brasileiro. O que surpreende, porém, é a forma como ele transcende o posto de simples anti-herói e se estabelece como um vilão de fato, impondo medo, tensão e um constante senso de perigo que transforma a jornada dos personagens em algo muito mais sombrio, imprevisível e envolvente.

Depois de oito edições focadas em retratar o cotidiano comum de um jovem universitário e sua jornada de maturidade, Petra quebra esse padrão ao trazer um arco muito mais voltado à ludicidade. Essa escolha pode gerar repercussões mistas, já que, sim, ela apresenta uma história interessante ao explorar o folclore brasileiro por meio de uma aventura energética e envolvente, mas, ao mesmo tempo, se afasta completamente do caminho que a saga Chico Bento Moço vinha construindo até então. Aqui, o amadurecimento de Chico é praticamente deixado de lado para dar lugar à veia fantástica, algo que já havia sido levemente tocado em Mistério na Roça, porém de forma muito mais moderada e integrada à proposta da série. Talvez falte à história um significado mais orgânico, ou mesmo uma inserção mais natural dentro do desenrolar narrativo que vinha sendo desenvolvido. Afinal, ainda deveríamos estar acompanhando Chico em seu retorno a Nova Esperança e nas possíveis consequências de seu encontro com a Ave do Paraíso, fortalecendo a presença do divino e do simbólico dentro da evolução emocional do personagem. Assim, o arco não é ruim quando analisado de forma isolada, mas, dentro do contexto maior que vinha sendo construído, passa a sensação de que não era exatamente o momento ideal para uma história como essa ser explorada, talvez funcionando melhor mais adiante na série.

Ainda assim, dentro desse mergulho mais fantasioso, Mariara surge como o elemento mais simbólico e interessante do arco. Sua perda de memória dialoga diretamente com o próprio Pantanal, um território frequentemente esquecido, explorado e violentado, mas que guarda uma identidade ancestral que insiste em sobreviver. Mariara não é apenas uma personagem misteriosa a ser protegida ou desvendada, ela funciona como metáfora viva da relação entre o humano e a natureza, fragilizada, ferida e constantemente à beira do apagamento. Ao colocar Chico e seus amigos diante dessa figura e de forças folclóricas que não se explicam facilmente, a narrativa reforça a ideia de que há coisas que não precisam ser totalmente compreendidas para serem respeitadas. A presença do Caipora, agora deslocado para um papel mais antagonista, intensifica esse conflito ao abandonar o arquétipo tradicional de guardião para assumir uma postura de punição extrema, quase como um reflexo da violência histórica sofrida pelo próprio bioma. No fim, Perdidos no Pantanal encontra sua força menos na continuidade direta da jornada de amadurecimento de Chico e mais na mensagem ambiental que propõe. A história chama atenção para a preservação, para o cuidado e para a responsabilidade humana diante de um ecossistema real, vivo e ameaçado, reforçado pelo uso de fotografias e informações que aproximam a ficção da realidade. Mesmo destoando do arco narrativo anterior, o conjunto funciona como uma aventura simbólica, carregada de folclore, mistério e alerta ecológico.

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

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