Nota
“Vou contar algumas histórias sobre pessoas que violaram os Mandamentos de Deus. E o que aconteceu com elas? Tornaram-se ricas, famosas e felizes.”
E se as punições divinas não acontecessem? E se aqueles que violassem os Mandamentos, em vez de serem castigados, recebessem recompensas? George era um padre que usou o nome de Deus em vão; Tony, um entalhador italiano que decidiu esculpir Deus; Ralph, um homem azarado que não honrou o dia sagrado; Edward, um órfão que conseguiu, de certa forma, encontrar um jeito de não honrar pai e mãe; Roger Jones era um homem religioso que cometeu assassinato; Joe Smith, um marginal que cometeu adultério; Tom Warner, um bancário que roubou; Donald, um homem que nunca amou até dar falso testemunho; Howard, um ex-detetive que desejou a casa de seu vizinho; David, um homem extremamente honesto até perceber as vantagens da mentira; e Robert, um gigante que nunca quis usar sua força para ferir outro, mas seguir esse mandamento só lhe trouxe sofrimento, até o momento em que decidiu abandoná-lo. Todos eles possuem histórias diferentes, mas compartilham um ponto em comum: desobedecer a um mandamento os levou a melhorar de vida, conquistar felicidade e, em alguns casos, alcançar riquezas inestimáveis.

Sidney Sheldon estrutura Os Doze Mandamentos a partir de uma provocação ainda mais ousada: para o autor, não existem dez, mas doze mandamentos. Essa ampliação não surge de uma releitura teológica profunda, mas de uma escolha narrativa que lhe permite expandir o jogo moral proposto ao leitor. O livro é dividido em doze capítulos que funcionam como contos independentes, cada um centrado na violação de um desses mandamentos e nas consequências surpreendentemente positivas que se seguem. Apesar de existir uma unidade temática clara, essa estrutura também evidencia diversos problemas. Mesmo quando se desconsidera o peso blasfêmico que Sheldon deliberadamente assume, os contos apresentam conflitos morais excessivamente simplificados, resoluções convenientes e uma abordagem que flerta com o sensacionalismo, tratando questões éticas complexas de maneira superficial e, em muitos momentos, desconfortável.
“Roger nunca teve certeza se o pé escorregou e por acaso pisou no acelerador, em vez do freio, ou se foi intencional.”
No que diz respeito ao estilo e à intenção moral, Os Doze Mandamentos parte de uma ideia realmente potente. A proposta de usar a sátira para criticar a religiosidade exacerbada, mostrando personagens que se tornam “ricos, famosos e felizes” justamente ao violarem preceitos bíblicos, carrega um potencial provocativo interessante e até pertinente. O problema é que esse potencial se esgota muito rápido. Sidney Sheldon parece mais preocupado em garantir que cada capítulo funcione como uma história fechada do que em construir narrativas minimamente coerentes ou envolventes. O resultado são contos mal planejados, pouco explorados e, na maioria das vezes, concluídos de forma apressada ou inconsistente. Há casos em que a consequência positiva prometida pelo próprio livro simplesmente não se concretiza de maneira clara, quebrando a lógica interna da obra. Em outros momentos, as situações apresentadas exigem uma suspensão de descrença exagerada, com lacunas narrativas difíceis de ignorar. Assim, embora o impacto inicial da proposta seja forte e a crítica moral esteja ali, o livro funciona apenas parcialmente, prejudicado por escolhas narrativas frágeis e por uma execução que não faz jus à ideia central. É uma leitura que instiga mais pela provocação do que pela qualidade literária, deixando a sensação constante de uma boa premissa desperdiçada.

Com tudo isso em vista, Os Doze Mandamentos acaba sendo uma leitura curiosa, mas frustrante. É surpreendente ver um autor tão associado ao domínio do suspense tropeçar justamente na execução, ainda que a proposta de sátira seja clara desde o início. A obra não convence plenamente em nenhum de seus objetivos: não se sustenta como sátira afiada, não funciona como crítica moral bem estruturada e tampouco alcança a força narrativa que costuma marcar os livros de Sidney Sheldon. Ainda assim, sua escrita direta, o humor pontual e o formato curto tornam o livro relativamente fluido, funcionando mais como uma distração passageira do que como uma experiência literária marcante. A sensação constante é a de um projeto que se perdeu no caminho, como se a ideia tivesse sido lançada sem o cuidado necessário para amadurecer suas implicações éticas e narrativas. Há momentos em que a leitura parece apressada, quase preguiçosa, o que reforça a impressão de potencial desperdiçado. No fim, trata-se de um livro que provoca mais incômodo do que reflexão, interessante pela ousadia da premissa, mas limitado por uma execução irregular. Uma ideia instigante e um resultado final aquém do que se espera de um autor consagrado.
“Que se dane o décimo segundo mandamento!, pensou ele.”
| Ficha Técnica |
Livro Único Nome: Os Doze Mandamentos Autor: Sidney Sheldon Editora: Record |
Skoob |
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.