Crítica | “O Morro Dos Ventos Uivantes” (Wuthering Heights) [2026]

Nota
3

Há uma linha tênue entre a releitura audaciosa e o puro desrespeito intelectual. Na história das adaptações literárias, o sacrifício da substância em prol da estética é um erro comum, mas o que a nova versão de O Morro dos Ventos Uivantes entrega em 2026 ultrapassa o limite do aceitável. O que deveria ser o resgate da visceralidade de Emily Brontë revela-se, sob a lente de Emerald Fennell e a produção de Margot Robbie, como uma tentativa desesperada de capitalizar em cima de um “estilo” (ou melhor, uma vibe), transformando dor e obsessão em um editorial de moda asséptico. Se a ideia era transformar uma das maiores tragédias da literatura inglesa em um sucessor espiritual de Saltburn, parabéns: o objetivo foi alcançado com uma mediocridade estarrecedora.

O primeiro grande sacrilégio começa na escalação. Margot Robbie, uma atriz de talento inegável e faro comercial apuradíssimo, aqui tropeça na própria autoindulgência. Sua Catherine Earnshaw não é a força da natureza selvagem e egoísta do livro; é uma interpretação higienizada, que parece mais preocupada em como o figurino (impecável, porém anacrônico) se comporta diante da luz do que com a fúria interna da personagem. A escolha de Robbie (que também produz o longa) ignora completamente o fato de que Cathy é uma jovem cujas decisões imaturas destroem gerações. Ao colocar uma mulher de 35 anos no papel, o roteiro de Fennell retira a urgência da juventude perdida e entrega uma personagem que parece apenas entediada em sua mansão de luxo. A química com o Heathcliff de Jacob Elordi é meramente estética; são dois modelos bonitos em uma tela cara, mas falta-lhes a lama, o suor e o cheiro de terra que Brontë descreveu com tanta maestria.

Ao extirpar Hindley, irmão de Cathy, da trama e passar seu papel para seu pai, a produção de 2026 remove o motor da vilania de Heathcliff e destrói uma das poucas figuras boas da história inteira. No material original, o abuso sistemático perpetrado pelo irmão de Cathy é o que justifica a transformação do “garoto adotado” em um monstro vingativo. Sem o algoz, Heathcliff perde sua causa. Ele deixa de ser um sobrevivente de um sistema familiar cruel para se tornar apenas um rapaz com “problemas de atitude”. A ausência de Hindley transforma a dinâmica de “Wuthering Heights” em um drama de condomínio. É uma narrativa rascunhada em traços grossos que ignora que, para haver uma vingança épica, é necessário haver uma ofensa à altura.

Visualmente, o filme comete o pecado da esterilização. Emerald Fennell, fiel ao seu estilo “choque visual vazio”, troca as charnecas fustigadas pelo vento de Yorkshire por uma fotografia saturada e limpa demais. Onde deveria haver opressão, há design de interiores. Onde deveria haver mofo e decadência moral, há uma trilha sonora de Charli XCX tentando desesperadamente convencer o público de que este é um filme “moderno” e “disruptivo”. Ao utilizar as aspas no título, “Wuthering Heights” a diretora tenta se blindar de críticas sobre fidelidade, alegando ser uma “interpretação pessoal”. No entanto, o que vemos na tela é o esvaziamento de todos os temas centrais: o racismo sistêmico (apagado ao escalar Elordi para um papel que Brontë descreve como “pele escura”), o ciclo de abuso geracional e a própria natureza da vingança. O filme corta a segunda metade do livro, assassinando a estrutura que dá sentido à obra original apenas para focar em cenas de sexo estilizadas que não acrescentam nada à narrativa, servindo apenas como clickbait para o trailer.

“O Morro dos Ventos Uivantes” (2026) é a prova de que Hollywood perdeu o medo de passar vergonha ao mexer em clássicos. É uma produção sem alma, feita por pessoas que claramente acreditam que a estética supera a essência. É um filme asséptico, esquecível e, acima de tudo, desrespeitoso. Trata-se de uma experiência cinematográfica superficial e insatisfatória, que funciona apenas como a tampa do caixão para qualquer tentativa séria de adaptar clássicos góticos nesta década. Se você busca a fúria de Brontë, volte às páginas. O que Margot Robbie e Emerald Fennell entregaram aqui não é arte; é apenas um produto de luxo mal embalado.

 

Pernambucano, jogador de RPG, pesquisador nas áreas de gênero, diversidade e bioética, comentarista no X, fã incontestável de Junji Ito e Naoki Urasawa. Ah, também sou advogado e me arrisco como crítico nas horas vagas.

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