Nota
Há filmes que tentam capturar a comédia, e há filmes que entendem o mecanismo de sobrevivência que ela representa. Isso Ainda Está de Pé? pertence ao segundo grupo. Distanciando-se do tom épico de suas obras anteriores, Bradley Cooper entrega aqui uma direção mais contida e observacional, servindo como o arquiteto de uma narrativa rascunhada em traços grossos de realidade, onde o riso é apenas o subproduto de um processo doloroso de autodescoberta.

O roteiro, fruto da parceria de longa data entre Cooper e Will Arnett, é o grande diferencial. Em vez de uma celebração do “astro”, o que temos é a dissecação de dois homens que habitam a periferia do sucesso, lutando contra a obsolescência em um cenário onde o microfone aberto é tanto uma arma quanto um refúgio. O grande mérito do longa não está na direção, mas na coragem de Will Arnett. Interpretando Alex Novak, Arnett despe-se da arrogância cômica de seus papéis anteriores para encarnar um homem de 40 e poucos anos cujo casamento de duas décadas com Tess (Laura Dern) evapora diante de seus olhos.
A inovação aqui é contra a própria estrutura da comédia de divórcio. O filme não nos entrega grandes brigas de tribunal, mas o vazio de um apartamento cinzento no centro da cidade. A descoberta do stand-up por parte de Alex não é um “sonho de infância”, mas uma fuga patética: ele entra numa noite de microfone aberto apenas para evitar pagar a taxa de entrada de um bar. É uma experiência cinematográfica que dói porque é mundana, ancorada numa performance de Arnett que finalmente justifica o seu talento dramático. Como diretor, Bradley Cooper faz aqui a sua escolha mais madura e talvez a mais divisiva. Ele abandona a intenção de deslumbrar. A estética é quase documental, focada nos clubes de comédia de Nova Iorque com uma crueza que remete ao cinema de Cassavetes. Cooper reserva para si o papel de Balls, o melhor amigo “cheio de vida” e levemente chapado de Alex. É um papel secundário, mas que serve como a âncora de leveza num roteiro que, por vezes, ameaça afundar no próprio desespero.

No entanto, há que se notar uma certa autoindulgência no ritmo. Com 121 minutos, o filme gasta demasiado tempo no primeiro ato, estabelecendo uma monotonia que quase sufoca o espectador antes de a história realmente “clicar” na segunda metade. É uma narrativa que exige paciência, tratando o público com uma seriedade que beira o desdém pelo entretenimento tradicional. O filme é tecnicamente impecável, mas emocionalmente estéril em alguns momentos. A química entre Arnett e a sempre magistral Laura Dern (que carrega o peso emocional de uma ex-atleta olímpica sacrificada pela família) é o que mantém a engrenagem funcionando. Sem o brilho de Dern, o filme correria o risco de ser apenas mais um estudo de personagem sobre “homens que fazem qualquer coisa menos ir à terapia”.
Isso Ainda Está de Pé? é o filme mais “humano” de Cooper, justamente por ser o menos ambicioso visualmente. É uma obra sobre a reinvenção na meia-idade que evita as soluções fáceis de Hollywood. Se você espera gargalhadas, sairá decepcionado. Mas se busca um retrato honesto sobre como o riso pode ser a última defesa contra o colapso, talvez encontrará aqui um dos roteiros mais afiados de 2026.
Victor Freitas
Pernambucano, jogador de RPG, pesquisador nas áreas de gênero, diversidade e bioética, comentarista no X, fã incontestável de Junji Ito e Naoki Urasawa. Ah, também sou advogado e me arrisco como crítico nas horas vagas.