Nota
“Aqui é a Encruzilhada, onde você escolhe um lugar para passar a Eternidade.”
Larry e Joan são um casal de idosos felizes, casados há 65 anos. Larry é um marido amoroso que dá todo o suporte à esposa, que enfrenta um câncer terminal, algo que o casal mantém em segredo. Durante uma festa de chá revelação, Larry acaba se engasgando repentinamente ao comer um pretzel e morre antes da esposa, acordando minutos depois na Encruzilhada. Lá ele é recebido por Anna, sua Coordenadora de Pós-Morte (CPM), que o informa que ele deve decidir onde quer passar sua eternidade ou permanecer ali, trabalhando como funcionário do local até que Joan chegue para que possam seguir juntos rumo à Eternidade. O problema surge quando, uma semana depois, Joan sucumbe ao câncer e também chega à Encruzilhada, sendo recebida por Ryan, seu próprio CPM. É então que ela descobre que, além de Larry, outra pessoa também a espera. Trata-se de Luke, seu primeiro marido, que morreu na Guerra da Coreia e está há 67 anos aguardando sua chegada para finalmente passarem a eternidade juntos. Agora Joan precisa tomar uma decisão impossível: escolher entre o grande amor de sua juventude ou o homem com quem construiu toda a sua vida.

Lançado no Festival Internacional de Cinema de Toronto em 7 de setembro de 2025 e nos cinemas dos Estados Unidos pela A24 em 26 de novembro do mesmo ano, Eternidade surge quase como uma sequência espiritual, talvez até literalmente, de tantas comédias românticas delicadas sobre amor e destino. O filme começa onde muitas histórias normalmente terminariam. Joan já encontrou o amor, viveu seu felizes para sempre e conseguiu superar a dor do luto, mesmo que nunca tenha esquecido seu primeiro marido. Ao abordar o que acontece após a morte, o longa preenche a tela com uma certa doçura ao nos colocar diretamente no lugar da protagonista, fazendo com que o público se questione o tempo todo qual seria a melhor escolha. O problema é que o prazo de uma semana que Joan recebe para decidir entre seus dois maridos acaba parecendo longo demais. Larry parece confortável demais, Luke parece utópico demais, e a narrativa passa a girar em torno da tentativa de entender quem Joan vai escolher, por que vai escolher e, principalmente, quem nós escolheríamos se estivéssemos em seu lugar. Talvez esse dilema projetado no espectador seja o verdadeiro motor da obra. Não se trata apenas da curiosidade sobre a decisão de Joan, mas da vontade de saber se nossa própria escolha seria a mesma da protagonista e quais seriam as consequências de carregar essa decisão pela eternidade.
O roteiro de Pat Cunnane é surpreendente ao propor uma pergunta que raramente aparece em histórias de amor: o que acontece com o “felizes para sempre” quando o “para sempre” realmente significa eternidade? A premissa justifica a presença do texto na The Black List de 2022, que reúne alguns dos roteiros não produzidos mais apreciados da indústria. Cunnane coloca essa ideia sob uma lupa ao mostrar que o felizes para sempre pode carregar nuances inesperadas. O amor que parecia definitivo na vida pode se tornar um dilema quando o tempo deixa de ser limitado, e a promessa de eternidade passa a exigir escolhas que talvez ninguém esteja preparado para fazer. A direção de David Freyne, que também assina o roteiro ao lado de Cunnane, é surpreendentemente contida. Em vez de apostar em uma fantasia exagerada para retratar a Encruzilhada, o diretor prefere construir um universo mais lúdico do que grandioso. Essa decisão permite que a direção de arte brilhe ao criar uma comunidade vibrante e curiosa, cheia de possibilidades de Eternidades que divertem o público. O filme ainda brinca com a ideia de destinos descontinuados ou superlotados, adicionando humor e criatividade ao conceito. A cinematografia aposta em cores vivas e luminosas que dão ao espaço uma atmosfera quase divina, mas sem cair em um ideal utópico excessivamente artificial.

Quem realmente sustenta toda a narrativa, porém, é o trio protagonista. Elizabeth Olsen entrega uma Joan repleta de camadas, tornando crível o conflito emocional que define a história. Em vários momentos é possível perceber o quanto ela ama Luke e a dor provocada por tudo que os dois não puderam viver, mas também o quanto encontra segurança e companheirismo ao lado de Larry. Miles Teller assume o papel de Larry com uma energia mais leve, funcionando muitas vezes como o centro cômico da trama. Seu esforço para provar que merece continuar ao lado de Joan gera momentos divertidos e até um pouco desesperados, especialmente quando ele próprio parece não saber explicar exatamente por que os dois se apaixonaram. Já Callum Turner surge como o contraponto perfeito, o grande amor idealizado da juventude, um homem envolto na intensidade de um sentimento que ficou congelado no tempo. Ele representa quase uma fantasia romântica, o tipo de escolha que parece perfeita em todos os sentidos. A pergunta que paira sobre a narrativa, no entanto, é justamente se o perfeito é realmente aquilo de que Joan precisa para passar a eternidade.
No fim das contas, Eternidade funciona muito mais como um exercício emocional do que como uma simples comédia romântica sobre a vida após a morte. O filme acerta ao transformar seu conceito fantástico em um dilema profundamente humano, fazendo o público refletir sobre amor, tempo e as escolhas que definem uma vida inteira. Ao mesmo tempo, essa mesma proposta acaba tornando o ritmo irregular em alguns momentos, já que a narrativa por vezes se prolonga mais do que deveria em torno de um conflito que já está claro para o espectador. Ainda assim, o carisma do elenco, a sensibilidade do roteiro e a criatividade do universo apresentado fazem com que a experiência permaneça envolvente até o fim. Não é uma obra perfeita, mas é uma história que encontra beleza justamente nas dúvidas que levanta, lembrando que até mesmo o “felizes para sempre” pode carregar perguntas difíceis quando a promessa é de uma eternidade inteira pela frente. Com uma ideia original e interpretações fortes, Eternidade entrega uma reflexão doce, curiosa e emocionalmente honesta sobre amar alguém… para sempre.
“Quando a eternidade está em jogo, uma vida inteira esperando parece nada”
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.