Crítica | Zico, O Samurai de Quintino

Nota
4

“Hey, hey, hey, o Zico é nosso rei!”

Arthur Antunes Coimbra era o caçula de seis filhos de uma família luso-brasileira que vivia no subúrbio carioca. Pequeno e franzino, Arthurzinho deu seus primeiros passos no futebol de salão até ser descoberto, em 1967, pelo radialista Celso Garcia, iniciando sua trajetória, aos quatorze anos, no Flamengo. Um ídolo que nasceu com espírito de guerreiro e humildade de um rei. O eterno Galinho de Quintino, Zico, rapidamente se transformou em uma lenda do futebol, construindo uma jornada que agora ganha as telonas, levando o Brasil a revisitar a história de um dos maiores craques de todos os tempos, mas, desta vez, não nos estádios, e sim nas salas de cinema. Sua trajetória se transforma em um documentário ousado, que reúne imagens raras, objetos históricos e uma linguagem moderna para revelar, como nunca antes, o legado de um dos maiores ídolos do futebol mundial em uma produção cinematográfica inédita e emocionante.

Com direção de João Wainer, conhecido por produções intensas como A Jaula e Bandida: A Número Um, o documentário começou a ser filmado em 2023, ano em que Zico completou 70 anos, e se apoia em um acervo valioso de sua trajetória. A produção percorre fitas VHS, filmes em Super-8, entrevistas e objetos históricos para reconstruir os marcos de sua carreira e, apesar de carregar o estigma comum aos documentários, encontra no bom humor do protagonista e na humanidade exposta através da família uma quebra de monotonia, tornando a experiência envolvente e acessível. O único ponto que pode causar estranhamento está na não linearidade da narrativa, que por vezes fragmenta a progressão dos acontecimentos. Ainda assim, é fascinante acompanhar os diferentes pontos de vista diante de verdadeiros tesouros, como a camisa 10 utilizada na final do Mundial de 1981 ou um caderno com anotações detalhadas de seus gols ao longo da carreira. São, porém, os relatos de seus filhos que ajudam a construir uma perspectiva mais íntima e inédita sobre o ídolo. Nesse contexto, Sandra Carvalho de Sá ganha destaque ao compartilhar memórias de mais de 50 anos ao lado do jogador, revelando um lado romântico pouco explorado, como quando relembra que, ainda no noivado, Zico respeitava o fato de ela ser fã de outro jogador e tratava a situação com naturalidade, sem qualquer sinal de ciúmes.

A produção pode até começar com um foco maior dentro de campo, trazendo depoimentos inéditos de grandes personalidades do futebol como Maestro Júnior, Paulo César Carpegiani, Carlos Alberto Parreira, Ronaldo Fenômeno e o radialista José Carlos Araújo, mas o documentário não se limita a exaltar feitos esportivos. A narrativa também mergulha nos momentos mais delicados da vida de Zico, como a morte de Geraldo, companheiro de equipe que, ao seu lado, ajudou a marcar a chamada geração de ouro do Flamengo, e cuja perda contribuiu para moldar ainda mais a forma como o jogador passou a enxergar sua trajetória e valorizar cada conquista. Ao ampliar o olhar para além dos gramados brasileiros, o documentário também acerta ao destacar a passagem de Zico pelo Japão, um dos capítulos mais relevantes e, por vezes, subestimados de sua trajetória. A experiência no Sumitomo Metals, atualmente conhecido como Kashima Antlers, não apenas prolongou sua carreira como jogador, mas foi fundamental para o desenvolvimento do futebol no país, contribuindo diretamente para a criação da J-League e para a consolidação de uma nova cultura esportiva. Esse recorte reforça a ideia de um ídolo que ultrapassa fronteiras e se reinventa dentro do próprio esporte, assumindo também um papel formador ao atuar como treinador da seleção japonesa.

Ainda assim, a construção narrativa do filme nem sempre acompanha a força de seu personagem. A não linearidade, embora interessante como proposta, por vezes compromete o ritmo e dilui o impacto de determinados momentos, algo que poderia ser melhor resolvido na montagem ao organizar de forma mais coesa os saltos temporais. Mesmo com essas oscilações, o documentário encontra sua força ao equilibrar o mito e o homem, revelando não apenas o camisa 10 da Gávea ou o ídolo da Seleção, mas também o filho, o marido, o pai e o avô. Ao reunir diferentes versões de uma mesma figura, Zico, O Samurai de Quintino constrói um retrato completo, sensível e respeitoso de um dos maiores nomes da história do futebol. Sem reinventar o formato, mas utilizando com eficiência seu vasto material, o longa emociona, informa e reafirma o tamanho de seu protagonista.

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

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