Crítica | Velhos Bandidos

Nota
4

Juntar a maior lenda do nosso cinema com uma das maiores estrelas pop da atualidade não é só marketing; é uma combinação que funciona perfeitamente na tela. Velhos Bandidos chega quebrando a banca ao misturar o clássico filme de assalto com a pura malandragem brasileira. O resultado é uma obra caótica, divertida e que não tem medo de ser exagerada.

Esqueça aquela estética lavada; aqui temos cores quentes que dão um tom super moderno para as ruas. O ritmo é acelerado, quase de videoclipe, jogando um monte de informações na tela o tempo todo. Dá para notar referências claras ao cinema de ação gringo, mas o tempero final é totalmente nosso, focado no improviso e no famoso “jeitinho”.

Essa dinâmica de trapaceiros, inclusive, lembra muito a energia caótica e vibrante do anime Great Pretender. Ambas as obras partem do mesmo princípio: o golpe perfeito não existe sem uma boa dose de teatro e improviso. Enquanto na animação japonesa vemos uma equipe criando cenários absurdos para enganar peixes grandes, o longa nacional traz essa mesma vibe de ilusão para a realidade urbana brasileira. A relação de mestre e aprendiz do anime se reflete aqui no choque delicioso entre a impulsividade de quem está começando e a calma quase irritante de quem já previu todos os passos do tabuleiro.

As atuações sustentam essa loucura com maestria. Ver Fernanda Montenegro jogando fora a imagem de boa velhinha para viver uma mente criminosa debochada e calculista é impagável. Ela dita o ritmo com uma calma assustadora. Do outro lado, Bruna Marquezine entrega pura eletricidade, sendo uma jovem impulsiva que bate de frente com a calmaria de Fernanda. Completando o bando, Ary Fontoura e Vladimir Brichta entregam participações hilárias que roubam a cena com um ótimo tempo de comédia.

O melhor do roteiro é que ele sabe rir de si mesmo e abraça o absurdo sem nenhuma vergonha. Quando os planos brilhantes começam a dar errado por causa de teimosia ou picuinhas da idade, o longa fica incrivelmente divertido. Ele entende que o público quer ver o circo pegar fogo e usa o crime apenas como uma desculpa para vermos personagens carismáticos fingindo ser quem não são. No fim das contas, Velhos Bandidos entrega exatamente o que promete: diversão, carisma de sobra e zero pretensão. É o cinema nacional mostrando que sabe fazer filme pop de qualidade e que a velha guarda ainda manda muito bem no jogo.

 

Pernambucano, jogador de RPG, pesquisador nas áreas de gênero, diversidade e bioética, comentarista no X, fã incontestável de Junji Ito e Naoki Urasawa. Ah, também sou advogado e me arrisco como crítico nas horas vagas.

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