Crítica | As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower)

Nota
5

“Você vê as coisas. Você guarda silêncio sobre elas. Você compreende.”

Em meados de 1992, o jovem Charlie Kelmeckis entra no ensino médio em Pittsburgh carregando mais dores do que alguém de quinze anos deveria suportar. Sofrendo de depressão clínica, lidando com tendências suicidas e ainda tentando superar a morte de seu único amigo, Charlie encontra algum conforto nas conversas com seu professor de inglês, Sr. Anderson, enquanto tenta sobreviver aos primeiros dias no colegial. Sua vida começa a mudar quando ele conhece os veteranos Sam e Patrick, dois jovens que vivem à margem da popularidade da escola e o recebem em seu pequeno mundo particular, ajudando Charlie a iniciar uma lenta jornada de socialização, amadurecimento e recuperação. Aos poucos, ele passa a descobrir novas experiências, amizades e sentimentos, em uma trajetória marcada por dores profundas, mas também pela esperança de finalmente encontrar um lugar ao qual pertença.

Em seu segundo trabalho como diretor, Stephen Chbosky recebe a difícil missão de adaptar o próprio romance, um desafio que ao mesmo tempo se mostra arriscado e recompensador. Chbosky surpreende ao conseguir unir o melhor dos dois mundos, sendo um roteirista e diretor capaz de respeitar profundamente a obra original, mas também de manter o distanciamento necessário para construir uma narrativa que funcione no cinema da mesma forma que funcionava nas páginas. Isso se torna ainda mais importante diante da responsabilidade de abordar temas tão densos e complexos. O resultado é uma adaptação emocionante, dilacerante e sincera, que encontra ainda mais força graças ao excelente trabalho de seu elenco, que abraça os personagens com todos os seus brilhos e cicatrizes.

Logan Lerman entrega um Charlie frágil, introspectivo e profundamente humano, acompanhando o amadurecimento do personagem enquanto deixa sempre visíveis as brechas para que seus demônios retornem e destruam tudo ao redor. É uma atuação que exige enormes variações emocionais e que comprova o talento do ator em um dos papéis mais difíceis de sua carreira. Já Emma Watson consegue apagar completamente qualquer resquício de Hermione para construir uma Sam energética, carismática e marcada por uma bagagem emocional complexa. Desde sua primeira aparição, a atriz domina a cena e entrega uma personagem memorável. O trio protagonista se completa com Ezra Miller, que cria um Patrick magnético, divertido e dolorido na mesma medida, alguém capaz de roubar a cena com sua força de personalidade ao mesmo tempo em que revela as dores escondidas por trás de seu carisma.

Embora Stephen Chbosky não seja um cineasta interessado em grandes firulas visuais, a história também não pede isso. Sua direção é simples, íntima e muito eficiente ao entender que a força do filme está nos diálogos, nos silêncios e naquilo que os personagens não conseguem dizer. É justamente essa delicadeza que torna a experiência tão poderosa. Ao mesmo tempo, a trilha sonora funciona quase como um quarto protagonista, ajudando a construir a identidade dos personagens e reforçando a atmosfera melancólica e nostálgica dos anos 1990. Canções de The Smiths, Sonic Youth, New Order e Cocteau Twins ajudam a dar profundidade ao universo do filme, mas é Heroes, de David Bowie, que se transforma no verdadeiro hino da narrativa. A música aparece em momentos fundamentais e ajuda a traduzir aquela sensação rara de descobrir algo que parece ter sido feito exatamente para você.

No fim, As Vantagens de Ser Invisível permanece como uma das histórias mais sensíveis e honestas já feitas sobre juventude, amadurecimento e pertencimento. O filme entende que crescer nem sempre é bonito, que carregar dores faz parte da experiência e que, muitas vezes, encontrar pessoas que nos enxergam pode ser o suficiente para mudar tudo. A frase “Nós aceitamos o amor que achamos merecer” se tornou um dos grandes símbolos da obra justamente porque resume boa parte de sua essência. É um filme sobre amizade, traumas, amor, descobertas e cicatrizes, mas acima de tudo sobre perceber que nunca é tarde para encontrar um lugar onde finalmente seja possível se sentir infinito.

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

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