Nota
O cinema de Kristoffer Borgli sempre foi pautado pela anatomia do desconforto, mas em O Drama, ele eleva essa premissa a um patamar de sadismo psicológico que testa a resiliência do espectador. O filme opera como um organismo vivo que pulsa através da ansiedade de seus protagonistas, Charlie (Robert Pattinson) e Emma (Zendaya). No início, o que vemos é um casal que exala aquela harmonia invejável de quem parece ter decifrado o código da convivência perfeita. Charlie é o retrato da entrega, um homem que projeta em Emma a estabilidade que parece faltar em sua própria psique inquieta, enquanto Emma carrega uma aura de mistério que o roteiro habilmente utiliza para construir uma tensão crescente. Um detalhe importante na composição da protagonista é que Emma possui uma deficiência auditiva, sendo surda de um ouvido. Essa característica é apresentada com uma naturalidade, funcionando como um traço intrínseco de sua identidade, mas a causa real dessa condição acaba sendo revelada apenas posteriormente, tornando-se uma peça fundamental para entendermos as cicatrizes que ela carregou até aquele momento.

A dinâmica do casal desmorona durante um jantar de provas para o casamento, com um casal de amigos de longa data, interpretados por Alana Haim e Mamoudou Athie. O que começa como uma noite comum de risadas e vinho logo se transforma em um jogo da verdade. Não há, inicialmente, uma sede por transparência absoluta ou uma busca obsessiva por segredos por parte de ninguém alí; tudo nasce de uma brincadeira inofensiva, um passatempo entre amigos que rapidamente descarrila para uma lavagem de roupa suja globalizada. O filme utiliza o isolamento daquela sala para criar uma explosão de informações e cores saturadas. Robert Pattinson entrega uma performance interessante como Charlie, um homem que se torna patético em seu desespero para processar o que foi dito na brincadeira, enquanto Zendaya sustenta o filme com uma atuação contida, equilibrando a vulnerabilidade da personagem com uma resistência silenciosa.
No entanto, é precisamente aqui que o filme encontra seu ponto mais divisivo, especialmente quando confrontamos a obra com a realidade brasileira. Existe uma disparidade cultural latente na forma como o grande segredo de Emma é construído. Para o contexto norte-americano, a revelação do passado dela é tratada como um pecado capital que justifica todo o caos. Contudo, para nós, no Brasil, o segredo de Emma pode acabar não sendo visto com a mesma seriedade. Para o espectador brasileiro, o dilema dela pode soar como um conflito de nicho, algo feito para um público específico que tem o privilégio de se chocar com minúcias morais que parecem distantes do nosso cotidiano. Há um risco real de que, por aqui, o filme seja visto como um exercício de problemas que não ressoa com a mesma urgência da nossa realidade, já que os segredos revelados pelos outros três personagens à mesa, as falhas de caráter de Charlie e as ações nada louváveis do casal de amigos, parecem, aos nossos olhos, muito mais graves e imperdoáveis do que o passado da Emma.

O filme não é ruim, longe disso; ele é tecnicamente impecável e traz bons debates acerca de uma realidade muito específica dos EUA. Borgli permite que a obra escape do realismo enfadonho para se tornar um pesadelo tecnicolor, onde cada revelação é disparada como uma bala à queima-rouba. As atuações de apoio trazem uma acidez que impede que o longa se torne apenas um exercício de sofrimento gratuito. É uma narrativa que diverte justamente por não pedir desculpas pela sua brutalidade verbal e por mostrar como pessoas supostamente esclarecidas podem se tornar mesquinhas em questão de minutos. No fim, o que fica é a sensação de que O Drama é um teste de moralidade: o que você vê naquela mesa diz muito mais sobre a sua própria bússola cultural do que sobre o caráter dos personagens. Mesmo que o público brasileiro não se sinta afetado da mesma forma pela gravidade do segredo central, o carisma magnético de Pattinson e Zendaya garante que a jornada valha a pena, consolidando o filme como um bom exemplo do desconforto moderno, ainda que sua recepção varie drasticamente dependendo de qual lado do equador você está assistindo.
Victor Freitas
Pernambucano, jogador de RPG, pesquisador nas áreas de gênero, diversidade e bioética, comentarista no X, fã incontestável de Junji Ito e Naoki Urasawa. Ah, também sou advogado e me arrisco como crítico nas horas vagas.