Nota
“Juro que é como se a cidade inteira fosse um grande tabuleiro de Banco Imobiliário e que, depois que você morreu, alguém chegou, ergueu o tabuleiro e mudou todas as peças de lugar.”
Keena Rowan era apenas uma caixa do Dollar Days quando um cliente a deixou intrigada ao comprar um prato raso de pouco mais de um dólar, mas foi quando Scotty voltou minutos depois para comprar um segundo prato, e depois um terceiro e um quarto, que a jovem mulher foi finalmente conquistada por ele. Um encontro depois, eles já estavam apaixonados, dando início a uma vida juntos que parecia promissora. Mas tudo desmorona seis meses depois, na noite em que Keena mata Scotty ao dirigir bêbada e causar o acidente que tira a vida do homem que amava. Presa por homicídio culposo ainda grávida, ela dá à luz na prisão e perde a guarda da filha, Diem, que passa a viver com os avós paternos, Grace e Patrick Landry. Agora, após cumprir cinco anos de pena, Keena retorna à cidade onde tudo aconteceu, determinada a recomeçar e, principalmente, a tentar se aproximar da filha que nunca pôde criar. No entanto, o destino parece continuar brincando com sua vida desde o primeiro momento. A antiga livraria que ela frequentava com Scotty agora se tornou um bar, e é ali que ela conhece Ledger, o dono do lugar, por quem sente uma atração imediata, a primeira desde a morte de Scotty. O que ela não esperava era descobrir, logo após um impulso que a leva a beijá-lo, que Ledger é justamente o melhor amigo de Scotty, alguém de quem ouviu tanto, mas nunca teve a chance de conhecer. A partir desse encontro, surge uma pergunta inevitável: até que ponto é possível apagar o passado, conquistar o perdão dos Landry, reconstruir laços com Diem e ainda se permitir viver um novo amor no mesmo lugar onde tudo deu errado?

Famosa por seus romances e ficções para jovens adultos, Colleen Hoover já era um verdadeiro fenômeno editorial, tendo vendido aproximadamente 20 milhões de livros quando lançou Uma Segunda Chance, em janeiro de 2022, e não dá para negar que é possível perceber um certo amadurecimento em sua escrita neste que é seu vigésimo terceiro livro. A obra não faz rodeios para começar, deixando claro desde o início que essa é a história de Keena e Ledger, mas que a trajetória dos dois está profundamente conectada à de Scotty. Por isso, somos conduzidos a conhecer esses personagens de forma gradual, com capítulos que alternam entre a perspectiva da mulher endurecida pela perda e pelo trauma e a do homem carinhoso que, mesmo relutante, se vê envolvido por uma estranha. A história de Keena é apresentada sem filtros logo de cara: uma mulher de 26 anos que acabou de sair da prisão e que deseja apenas conseguir um emprego, encontrar alguma estabilidade e, acima de tudo, conhecer a filha que nunca pôde criar. Esse objetivo a leva até o Paradise Apartments, um conjunto habitacional de baixa renda, e eventualmente ao Ward’s, o bar de Ledger. Por outro lado, Ledger construiu uma relação quase paternal com Diem, o que transformou completamente sua forma de ver o mundo e suas prioridades, tornando-o alguém menos disposto a se envolver emocionalmente com qualquer mulher que cruze seu caminho. Isso muda no instante em que Keena entra no bar, ou melhor, Nicole, já que, com medo de ser reconhecida, ela utiliza seu segundo nome antes de descobrir quem Ledger realmente é. A história, em muitos aspectos, é previsível, e o leitor rapidamente entende o que esse encontro inevitavelmente vai desencadear. No entanto, é justamente aí que Colleen Hoover encontra seu maior acerto: ela não tenta esconder o destino de seus personagens, mas se dedica a explorar o caminho até ele com o máximo de carga emocional possível. Acompanhamos o esforço de Keena para se manter forte diante de um passado que insiste em persegui-la, a jornada de Ledger para derrubar as barreiras que construiu ao longo dos anos e, principalmente, somos levados a conhecer Scotty, que mesmo ausente, continua sendo o elo mais forte entre todos eles, como o grande amor da vida de Keena e a figura central na vida de Ledger.
“Para Ledger, ele estava sendo beijado por uma garota passageira que ele passara a noite encarando.
Para mim, eu estava sendo beijada pelo barman gato cujo melhor amigo tinha morrido por minha causa.”
Assuntos delicados são a tara secreta de Colleen, e dessa vez não seria diferente. Assim como em tantas outras obras da autora, esse não é um simples romance, existe um tema central que conduz toda a narrativa: o luto. Tudo que acontece, seja no presente ou no passado, surge como consequência direta da forma como cada personagem lida com essa perda. É justamente na diversidade dessas reações que a história encontra sua força, à medida que conhecemos mais profundamente Keena, Ledger, Grace e Patrick. São quatro formas distintas de encarar o luto, quatro maneiras de continuar vivendo após uma ruptura irreparável, e esse sentimento passa a definir completamente a vida e a personalidade de cada um deles. Mais do que isso, o livro constrói conflitos morais constantes, colocando o leitor em uma posição desconfortável ao questionar até que ponto é possível perdoar, seguir em frente ou até mesmo permitir-se ser feliz depois de uma tragédia tão marcante. O passado não é apenas uma memória, ele é uma presença ativa que interfere em cada decisão, em cada aproximação e em cada tentativa de recomeço. Talvez por isso a obra acabe nos forçando a focar quase exclusivamente nesse quarteto e em Diem, porque são eles que realmente importam. Ainda assim, em alguns momentos, a autora abre espaço para desenvolver outros personagens, o que pode soar estranho. Apesar de interferirem de certa forma no desenrolar da história, muitos deles não possuem relevância suficiente para justificar sua presença constante, enchendo a narrativa com nomes que pouco acrescentam ao núcleo principal. Roman, Amy, Lady Diana, Ruth, Aaron, Ivy, Mary Ann e tantos outros passam pela trama e até contribuem em determinados momentos, mas não deixam marcas significativas. Por outro lado, um detalhe que se destaca positivamente é a escolha de Colleen em não nomear a cidade onde a história se passa. Essa ausência abre espaço para que o leitor construa mentalmente esse cenário, transformando-o em qualquer pequena cidade do mundo, ou até em uma criação própria, ainda assim doce, íntima e acolhedora, como se fosse um lugar onde todas essas dores e recomeços pudessem, de alguma forma, coexistir.

Uma Segunda Chance é, acima de tudo, um livro sobre sentir. Colleen Hoover reafirma aqui a força do seu estilo, apostando em uma escrita direta, emocionalmente crua e extremamente acessível, que não tem medo de expor feridas abertas para provocar identificação. A leitura é uma verdadeira montanha-russa, capaz de conduzir o leitor por tristeza, angústia, culpa, esperança e até momentos genuínos de felicidade, construindo uma experiência intensa que dificilmente passa despercebida. Não existe certo ou errado dentro dessa narrativa, apenas pessoas lidando com as consequências de suas escolhas, tentando sobreviver ao peso dos próprios erros e ao julgamento constante, seja interno ou externo. Keena se torna, nesse sentido, uma protagonista profundamente humana, inserida em uma realidade que também fala sobre mulheres marginalizadas, julgadas por seus atos e condenadas a carregar marcas que vão muito além do que é visível. As cartas que ela escreve para Scotty são, talvez, o ponto mais devastador da obra, funcionando como um espaço de confissão onde tudo aquilo que não pode ser dito ganha forma, revelando camadas emocionais que ampliam ainda mais o impacto da história. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento do relacionamento entre Keena e Ledger, a tentativa constante dela de se reaproximar de Diem e o esforço para reconstruir a própria vida tornam a narrativa envolvente e coerente com sua proposta. No fim, fica claro que perdoar é um ato difícil, mas profundamente transformador, capaz de salvar vidas, inclusive a de quem precisa aprender a seguir em frente. Com um equilíbrio entre dor e esperança, Uma Segunda Chance entrega uma experiência marcante, de um livro que emociona, provoca e permanece com o leitor muito depois da última página.
“As pessoas acham que as mulheres que já foram presas têm uma aparência específica. Que nos comportamos de uma maneira específica. Mas somos mães, esposas, filhas, humanas.”
| Ficha Técnica |
Livro Único Nome: Uma Segunda Chance Autor: Colleen Hoover Editora: Galera |
Skoob |
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.