Nota
1.5

A franquia Os Estranhos sempre foi uma daquelas propriedades intelectuais que Hollywood insiste em manter no soro, mesmo quando o paciente já deu todos os sinais de que gostaria de descansar em paz. Em 2024, quando anunciaram que teríamos uma trilogia inteira filmada de uma só vez, dirigida por Renny Harlin, houve quem levantasse a sobrancelha com um pingo de esperança sobre a possibilidade de finalmente darem profundidade aos mascarados. Pois bem, chegamos a 2026, o Capítulo 3 finalmente aterrissou nos cinemas e a resposta é um sonoro e retumbante não. Após três longos anos acompanhando essa saga de sobrevivência esticada ao máximo, a trilogia termina exatamente da mesma forma que começou: totalmente esquecível.

O grande problema aqui não é a falta de sangue ou de sustos técnicos, mas a ausência completa de alma. O roteiro tenta, a todo custo, encerrar a jornada de Maya (Madelaine Petsch) tentando dar um fechamento que justifique as quase seis horas de projeção somadas dos três filmes. O que recebemos, no entanto, é uma repetição exaustiva dos mesmos tropos que já estavam desgastados lá no primeiro filme de 2008. É aquela velha história de invasão domiciliar que se recusa a evoluir, tratando o espectador como alguém que nunca viu um filme de terror na vida.

Visualmente, o Capítulo 3 mantém o padrão de Renny Harlin. Há um uso decente das sombras e uma fotografia que tenta emular o isolamento rural dos Estados Unidos com certa competência, mas nada disso salva a narrativa da sensação de enchimento de linguiça. É como se tivessem material para um filme de 90 minutos e, por algum motivo puramente comercial, decidiram fatiar isso em três partes. O resultado é um ritmo arrastado, onde passamos tempo demais esperando algo acontecer, apenas para sermos recompensados com um jump scare previsível que você consegue ver chegando a quilômetros de distância.

Diferente dos capítulos anteriores, este encerramento finalmente decide abrir o jogo e contar a história dos Estranhos. O roteiro tenta mergulhar na origem dos assassinos e explicar o que os levou a se tornarem aquelas figuras aterrorizantes. Contudo, essa tentativa de construir uma mitologia acaba sendo o maior desperdício de potencial do gênero slasher moderno. Ao tirar o véu de mistério, o filme entrega uma narrativa totalmente vazia e mergulhada em clichês de vilões que já vimos centenas de vezes. O que deveria ser uma revelação chocante soa apenas como um roteiro requentado de produções genéricas dos anos 90, perdendo toda aquela aura niilista que fazia o original ser perturbador. Quando o mistério dá lugar a uma explicação barata e sem criatividade, os vilões perdem sua força.

Para quem acompanhou a trilogia desde o Capítulo 1, fica um gosto amargo de tempo perdido. Houve toda uma promessa de que essa nova abordagem exploraria o que acontece com uma vítima após o trauma inicial, mas o roteiro se perde em perseguições genéricas pela floresta e diálogos que servem apenas para mover os personagens do ponto A ao ponto B. A sensação é de que estamos assistindo a um looping. Maya corre, se esconde, encontra um objeto pontiagudo, perde o objeto e corre novamente. Repita isso até os créditos subirem.

O elenco de apoio neste capítulo final também não ajuda muito. Personagens como os interpretados por Fritzi Haberlandt e outros moradores da cidade entram e saem da trama apenas para servirem de bucha de canhão, sem que o espectador consiga decorar sequer o nome deles. Não há um investimento emocional; você não torce para que ninguém sobreviva porque os personagens não agem como seres humanos normais em situações de perigo. Eles tomam decisões tão absurdas e ilógicas que a nossa simpatia desaparece nos primeiros vinte minutos de projeção.

Além disso, a trilha sonora tenta desesperadamente criar uma tensão que as imagens não conseguem sustentar. É aquele barulho estridente que sobe quando a câmera vira, tentando te dar um susto no susto, já que o clima de pavor psicológico passou longe do set de filmagem. Falta a crueza e o silêncio desconfortável que Bryan Bertino conseguiu imprimir no filme original. Harlin é um diretor de ação, e isso fica claro na forma como ele conduz as cenas de violência: é tudo muito coreografado, muito limpo para um filme que deveria ser sujo e desesperador.

A estratégia de lançar três filmes em um intervalo de tempo tão curto parecia uma jogada ousada de marketing, mas na prática só serviu para escancarar a fragilidade do argumento. Se você assistir aos três em sequência, percebe que não há um arco de crescimento. Maya não se torna uma final girl icônica; ela apenas sobrevive por conveniência do roteiro até o clímax final. E por falar em clímax, o desfecho deste Capítulo 3 é de uma covardia cinematográfica impressionante. Ele tenta deixar portas abertas enquanto finge que está encerrando um ciclo, resultando em um final que não satisfaz nem quem queria respostas, nem quem queria apenas um bom banho de sangue.

No panorama do terror atual, onde temos estúdios como a A24 e a Neon elevando o nível do gênero com tramas complexas e metáforas sociais, Os Estranhos – Capítulo Final parece um artefato de uma era que já passou. É o tipo de filme que você assiste num domingo à tarde por falta de opção e esquece o que aconteceu assim que levanta do sofá para ir à cozinha. Não há uma cena memorável, um diálogo marcante ou uma morte que faça você dizer uau. É o arroz com feijão mais insosso possível da indústria.

O que fica de lição após o encerramento dessa trilogia é que nem toda franquia precisa de um reboot ou de uma expansão de universo. Às vezes, o mistério inicial é o que sustenta a obra. Ao tentar transformar Os Estranhos em uma saga épica e explicar suas motivações, os produtores acabaram retirando o que os vilões tinham de mais interessante: a imprevisibilidade. Aqui, os mascarados se tornam quase vilões de desenho animado, onipresentes e indestrutíveis, aparecendo atrás de portas e janelas de forma tão mecânica que o medo dá lugar ao bocejo.

Portanto, se você estava esperando que o Capítulo 3 salvasse a lavoura e desse um sentido heróico para os dois filmes anteriores através de sua origem, pode tirar o cavalinho da chuva. É uma conclusão protocolar, feita para cumprir contrato e fechar o pacote de vendas para o streaming. Maya termina sua jornada, os mascarados continuam por aí, e o público continua órfão de um terror de invasão que realmente nos faça querer trancar as portas de casa com medo.

Em resumo, Os Estranhos – Capítulo Final é a pá de cal em uma trilogia que nunca precisou existir. Foi um exercício de marketing ambicioso que resultou em uma experiência cinematográfica pálida. Se o objetivo era criar uma nova marca duradoura para o horror dos anos 2020, falharam miseravelmente. O filme entra para a lista de sequências que ninguém pediu e que ninguém fará questão de lembrar daqui a dois meses. Uma pena para Madelaine Petsch, que merecia uma vitrine melhor, e uma pena para os fãs do original, que viram sua franquia favorita ser diluída até virar água com açúcar. A trilogia acabou, e a única coisa que resta é o silêncio, não o silêncio do medo, mas o silêncio do desinteresse total.

 

Pernambucano, jogador de RPG, pesquisador nas áreas de gênero, diversidade e bioética, comentarista no X, fã incontestável de Junji Ito e Naoki Urasawa. Ah, também sou advogado e me arrisco como crítico nas horas vagas.