Crítica | Uma Segunda Chance (Reminders of Him)

Nota
3

“Querido Scotty, eu fui solta mais cedo por bom comportamento e cá estou eu, roubando isso. […] Tomara que isso não me traga nenhum carma, porque estou voltando para um lugar onde tudo deu errado para tentar fazer alguma coisa certa.”

Kenna Rowan cometeu um grande erro no passado, o que a levou a ser condenada a sete anos de prisão por causar o acidente trágico que resultou na morte de Scotty Landry, seu namorado. Agora, ao deixar a prisão, ela retorna à sua cidade natal, no Wyoming, determinada a reconstruir a própria vida e finalmente conhecer sua filha, Diem, que nasceu poucos meses após sua condenação e foi criada pelos avós paternos, que nunca permitiram qualquer aproximação. Confrontada por uma realidade marcada pelo preconceito e pela dificuldade de recomeçar, Kenna tenta encontrar algum espaço em um lugar onde sua presença ainda desperta ressentimento. Nesse processo, seu caminho cruza com o de Ledger Ward, ex-jogador da NFL e dono do bar mais popular da cidade. Pouco depois, ela descobre que Ledger era o melhor amigo de Scotty, alguém que, ironicamente, nunca chegou a conhecer antes da tragédia. A aproximação entre os dois, inicialmente marcada por tensão e desconfiança, evolui para um romance secreto e inesperado, capaz de colocar ambos em uma posição delicada diante das cicatrizes ainda abertas do passado.

Lançado em maio de 2022, Uma Segunda Chance se tornou rapidamente mais um dos grandes sucessos de Colleen Hoover. O livro consolidou-se como best-seller em pouco tempo, acumulando milhares de avaliações e ampla repercussão nas redes sociais, especialmente entre os BookToks. Claro que o fato de carregar o nome de uma autora já extremamente popular ajudou a impulsionar ainda mais sua visibilidade, mas dificilmente uma obra conquista tamanha repercussão sem oferecer uma história emocionalmente envolvente, dolorosa e acessível, características que levaram muitos leitores a considerá-la uma das melhores obras da autora. A força da narrativa está justamente na forma como acompanha personagens tentando sobreviver aos traumas do passado, lidar com culpa, perdão e a possibilidade de se permitir viver novamente, mesmo após experiências devastadoras. O problema surge quando uma obra tão bem recebida precisa ser condensada para o cinema. Adaptar cerca de 368 páginas em apenas 114 minutos inevitavelmente exige cortes e simplificações, e é exatamente aí que o longa encontra sua maior fragilidade. Embora algumas condensações funcionem narrativamente, a ausência de momentos-chave enfraquece o impacto emocional da história. Elementos como o primeiro beijo de Kenna e Ledger, o anel de noivado e a relação de Kenna com sua mãe são completamente removidos, tornando a jornada menos significativa. Até mesmo a fatídica carta sobre o dia do acidente é resumida de forma tão drástica que altera parte importante de seu sentido original, diminuindo consideravelmente o peso dramático da narrativa, especialmente ao suavizar questões como os pensamentos suicidas de Kenna.

Maika Monroe já provou seu talento em produções de terror como Corrente do Mal e Longlegs, e agora é colocada à prova ao assumir o protagonismo de um drama romântico denso. Sua atuação claramente não figura entre os melhores trabalhos da carreira, mas ainda assim é sólida o suficiente para sustentar o longa com competência e compensar parte das fragilidades do roteiro. Ela possui presença de tela, traduz de forma convincente a dor da personagem e faz o público se importar com sua jornada como mãe tentando reconstruir a própria vida e se aproximar da filha. As melhores cenas do filme são justamente aquelas em que Monroe explora o sofrimento materno de viver distante de Diem, especialmente nas interações com a jovem Zoe Kosovic, que entrega uma performance carismática e natural. Ao mesmo tempo, o longa parece constantemente empenhado em tornar Kenna menos culpável, suavizando parte de suas responsabilidades para acelerar a empatia do público, talvez como estratégia para evitar um processo de redenção mais gradual e complexo.

O maior desafio acaba recaindo sobre Tyriq Withers, que até demonstra química com Monroe, mas se vê preso a um romance mal desenvolvido. Fica evidente desde cedo que Kenna e Ledger irão se apaixonar, porém o roteiro constrói essa relação de maneira truncada, fazendo com que a dinâmica entre os dois pareça artificial em diversos momentos, saltando rapidamente de uma tensão contida para uma intensidade pouco convincente. Embora seja vendido como um romance, o longa funciona muito mais como um drama sobre culpa, luto e maternidade, deixando a relação entre Kenna e Ledger em segundo plano enquanto o vínculo dela com Diem ganha bem mais força emocional. Lauren Graham e Bradley Whitford, intérpretes dos pais de Scotty, são adições interessantes ao elenco, além de serem atores que se conectam facilmente com a audiência pela memória afetiva de grandes papéis de suas carreiras. Ainda assim, falta espaço de tela para ambos em uma trama na qual representam diretamente o peso dos rancores que perduram e reverberam, assim como a culpa e o remorso que movem boa parte dos personagens. Dois atores extremamente competentes acabam limitados a momentos protocolares e diálogos que poderiam ter muito mais impacto caso recebessem maior desenvolvimento. Em diversos momentos, surge a dúvida se o roteiro, assinado pela própria Colleen Hoover ao lado de Lauren Levine, e a direção de Vanessa Caswill são realmente competentes ou se a execução falha comprometeu decisões importantes, prejudicando o desenvolvimento do filme e, consequentemente, seu resultado final.

Visualmente agradável e sustentado por uma fotografia bonita e delicada, Uma Segunda Chance apresenta uma proposta emocional interessante ao acompanhar uma mulher obrigada a confrontar seus próprios erros para tentar reconstruir a vida e reconquistar o direito de existir ao lado da filha. Quando o longa concentra sua atenção em Kenna, em sua culpa, em seu desejo de redenção e na complexidade de seu retorno, a narrativa encontra seus melhores momentos e funciona com honestidade. Há inclusive pequenos cuidados de construção de universo que demonstram atenção ao material original, como a presença antecipada de Lady Diana em cena muito antes de sua introdução formal, criando a sensação de continuidade e de que aquele mundo já existia para além da protagonista. O problema surge quando o filme tenta vender sua principal camada romântica. Tudo parece excessivamente calculado, artificial e moldado para entregar um produto mais comercial do que genuinamente emocional. Falta conexão real entre seus protagonistas, falta o momento que faz toda a construção finalmente se encaixar e justifica o romance como algo inevitável. O resultado é um filme que funciona em partes: acerta ao explorar culpa, maternidade e recomeço, mas perde força ao tentar equilibrar romance e trauma dentro de uma estrutura excessivamente resumida. Talvez, para quem não conhece a obra literária, o longa consiga funcionar de maneira mais satisfatória como um drama romântico de recomeço. Como adaptação, no entanto, tropeça justamente onde mais precisava acertar, falhando em traduzir para as telas a densidade emocional, a complexidade e o peso narrativo que fizeram do livro um sucesso. Uma Segunda Chance é agradável, competente em alguns momentos e conduzido por um elenco funcional, mas deixa a constante sensação de que havia ali um filme muito mais potente esperando para existir.

“Houve um antes de você, um durante você e eu nunca imaginei que haveria um depois de você.”

 

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

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