A curiosidade pode ser um instinto traiçoeiro. É ela que nos faz abrir portas que deveríamos deixar fechadas, seguir trilhas que não estão no mapa ou entrar em lugares que parecem nos observar de volta. O problema é que, quando o medo chega, já é tarde demais para voltar. Então pensa comigo: se você visse uma cabana isolada no meio da neblina… entraria?
Esta é a história não contada de um caçador que decidiu se aventurar em uma floresta que não conhecia. Ele partiu cedo, com a espingarda firme nas mãos, planejando passar o dia em busca de presas grandes. No meio do caminho, resolveu mudar de direção, explorando um trecho desconhecido da mata, famoso entre caçadores por abrigar animais raros. Estacionou o caminhão no início da trilha e avançou com cuidado entre árvores altas, sentindo cada galho quebrar sob seus pés. O céu estava encoberto e a luz fraca fazia a neblina parecer viva, descendo de repente e envolvendo tudo ao redor. O frio cortava a pele, atravessava as roupas e chegava aos ossos, enquanto o silêncio da floresta se tornava absoluto, quase insuportável. Cada respiração era audível demais, cada passo parecia ecoar como se a mata estivesse observando. Ele tentava se orientar, mas os caminhos pareciam se repetir, e a neblina transformava árvores em sombras desconhecidas. O tempo passava sem sentido, e ele já não sabia se caminhava há minutos ou horas, cada instante aumentando a sensação de isolamento e vulnerabilidade. A floresta se tornava mais estranha e hostil, e o caçador começava a perceber que estava sozinho de uma maneira que ia além da ausência de vida humana.

Conforme a neblina se tornava ainda mais densa, o caçador começou a sentir a fome e o cansaço invadindo seu corpo. A cada passo, tropeçava em raízes ou folhas molhadas, e a sensação de que estava sendo observado crescia a cada movimento. O frio parecia ganhar consistência e a neblina parecia moldar formas que desapareciam quando ele piscava, criando sombras que lembravam figuras humanas. O vento não soprava, mas havia sussurros, pequenas vozes que pareciam repetir palavras incompreensíveis. Quando finalmente avistou uma luz fraca entre as árvores, correu sem pensar, tropeçando no chão irregular, desesperado para encontrar abrigo. A cabana era pequena, velha, coberta de limo e galhos secos, com a madeira rangendo a cada passo. Ele entrou sem hesitar, sentindo o ar pesado e úmido do interior, quase sufocante. Tateando as paredes, encontrou um interruptor e acendeu a luz, e o que viu congelou seu coração. As paredes estavam cobertas de molduras, dezenas de quadros com rostos humanos olhando diretamente para ele. Alguns não tinham olhos, outros não tinham bocas, alguns tinham feições arrancadas ou distorcidas, e todos pareciam imóveis, eternamente fixos naquele instante de terror que se projetava sobre ele.
O pavor tomou conta de cada músculo do corpo do caçador, mas o cansaço e a fome foram mais fortes. Ele se sentou no chão, encostando-se em uma parede fria, e encontrou um cobertor antigo sobre uma mesa. Envolveu-se nele, tentando se aquecer e acalmar a respiração acelerada, e o sono pesado veio rápido, quase sem aviso, trazendo sonhos confusos e fragmentos de figuras observando-o nas sombras. O corpo parecia inerte, mas a mente permanecia em alerta mesmo adormecida. Quando finalmente despertou, uma luz intensa inundava o ambiente, quente demais para ser apenas o sol entrando por frestas. Piscando, tentou localizar a origem e percebeu que a claridade atravessava as molduras das paredes. Cada rosto que antes parecia imóvel agora era iluminado, como se algo estivesse do outro lado observando cada gesto. O calor da luz misturava-se à sensação de claustrofobia e à percepção de que havia algo mais além daquilo que podia ver.

A compreensão chegou devagar, como um golpe no peito. A neblina, o frio, os rostos fixos nas paredes, o silêncio absoluto e o cansaço eram apenas uma preparação para a realidade aterrorizante. Ele percebeu finalmente que aqueles quadros não eram quadros, que aquilo que o observava não estava contido dentro das molduras. Cada luz que atravessava a parede era um portal, cada rosto era uma janela para algo que existia ali, algo que o vigiava e que poderia atravessar a fronteira entre o mundo que conhecia e aquilo que o esperava. O ar parecia pesado demais para respirar, cada sombra parecia ter vida própria, e a sensação de estar preso entre dois mundos tomou conta dele por completo. Ele se levantou com dificuldade, tentando recuar, mas a percepção era clara e inescapável. Aquilo que parecia ser segurança era apenas ilusão. As molduras não eram quadros, eram janelas, e alguém ou algo estava do outro lado, esperando o momento certo para atravessá-las e desaparecer com ele.
Icaro Augusto
Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.