Creepygeek | Arquivo Morto: A Mulher de Isdalen

Entre as montanhas frias de Bergen, na Noruega, um corpo carbonizado foi encontrado em meio à névoa e ao silêncio do “Vale da Morte”. Nenhum nome, nenhum passado, apenas pistas que pareciam mais saídas de um filme de espionagem do que de um crime comum. Meio século depois, a Mulher de Isdalen continua sendo um dos maiores enigmas da Guerra Fria.


 

O corpo de uma mulher foi encontrado em 29 de novembro de 1970 por um homem e suas duas filhas que caminhavam pelo Vale de Isdalen, uma área isolada de Bergen conhecida tanto pela beleza natural quanto por seu passado sombrio, apelidada de “Vale da Morte” desde a Idade Média. A cena era perturbadora: o corpo estava entre pedras parcialmente queimado, com os braços estendidos numa posição de boxeador, típico de vítimas de queimadura, cercado por um guarda-chuva quebrado, joias, um relógio e algumas garrafas. O advogado policial Carl Halvor Aas foi o primeiro a chegar ao local e relatou que o corpo estava fora da trilha, exalando um forte cheiro de carne queimada. Ele descreveu que a parte da frente da mulher, incluindo o rosto e quase todo o cabelo, estava completamente carbonizada, enquanto as costas permaneciam intactas, sugerindo que o fogo pode ter sido provocado de maneira direcionada. A vítima aparentava ter entre 25 e 40 anos, com cabelos castanhos curtos e uma faixa azul e branca ainda presa à cabeça. O detalhe mais intrigante da cena era o fato de apenas a parte frontal do corpo ter sido atingida pelas chamas, enquanto as costas permaneciam praticamente intactas, o que levou os investigadores a acreditar que o fogo começou à sua frente e cessou antes que pudesse se alastrar quando ela caiu.

A investigação foi conduzida com rapidez, mas logo se revelou um quebra-cabeça intrigante. A autópsia confirmou que a mulher estava viva quando foi queimada, pois havia fuligem em seus pulmões e monóxido de carbono no sangue, além de uma dose maciça de 50 a 70 pílulas para dormir em seu organismo. Tinha cerca de 1,70 metro, dentes tratados com coroas de ouro e uma aparência que indicava origem estrangeira. No local, a polícia encontrou uma série de objetos queimados, mas nenhum capaz de revelar sua identidade: rótulos, etiquetas e marcas haviam sido meticulosamente removidos. Três dias depois, duas malas pertencentes à vítima foram localizadas na estação ferroviária de Bergen. Dentro delas, havia roupas, perucas, cosméticos, mapas, moedas de diferentes países e um bloco de notas que continha um código revelando suas viagens pela Europa com ao menos oito identidades falsas. Nos hotéis, sempre se registrava como belga, trocava de quarto e raramente conversava com outros hóspedes. Testemunhas relataram que a mulher falava francês, alemão e inglês, e parecia sempre em alerta, como se estivesse sendo observada. Mesmo com retratos falados divulgados pela Interpol e ampla cobertura da mídia, a “Mulher de Isdalen” jamais foi identificada, deixando em aberto se sua morte foi um suicídio cuidadosamente planejado ou o silenciamento de uma agente envolvida em algo muito maior.

Entre as descobertas mais curiosas estavam o bilhete codificado e uma sacola plástica de uma loja em Stavanger, que levou a polícia até um novo rastro. O filho do dono da loja, Rolf Rørtvedt, lembrou-se de ter vendido botas de borracha a uma mulher bem vestida, de cabelos escuros e comportamento enigmático. Ela falava inglês com leve sotaque e parecia escolher o calçado com extremo cuidado, além de exalar um odor forte que ele descreveu como alho — o mesmo detalhe mencionado por outras testemunhas. A partir desse relato, os investigadores a rastrearam até o hotel St. Svithun, onde se registrou com o nome falso de Fenella Lorch. À medida que o caso avançava, a lista de pseudônimos crescia: Genevieve Lancier, Claudia Tielt, Alexia Zarne-Merchez, Vera Jarle, Ms. Leenhouwfr — todas identidades usadas em diferentes cidades norueguesas e europeias. O padrão de viagens, somado ao bilhete codificado e aos múltiplos passaportes, fez surgir a teoria de que ela seria uma espiã da Guerra Fria. Embora a polícia tenha decifrado o bilhete e concluído que ele registrava apenas seus deslocamentos, a hipótese da espionagem nunca deixou de rondar o caso, principalmente após a confirmação de que os serviços secretos noruegueses também haviam investigado discretamente o episódio.

O exame toxicológico revelou uma combinação letal de monóxido de carbono e uma grande quantidade de pílulas para dormir, indicando que a mulher ainda estava viva quando o fogo começou. A polícia considerou a hipótese de suicídio, sustentada pelo chefe de polícia de Bergen, mas muitos investigadores e jornalistas acharam a teoria improvável diante dos detalhes do caso. A carbonização seletiva, as múltiplas identidades e o comportamento evasivo da vítima levantavam mais perguntas do que respostas. Em 5 de fevereiro de 1971, ela foi sepultada com um funeral católico, decisão tomada com base nos nomes de santos usados por ela nos registros de hotéis. A cerimônia ocorreu no cemitério de Møllendal, em Bergen, diante de dezesseis policiais, e o corpo foi colocado em um caixão de zinco para permitir futuras exumações. Um álbum de fotos documentou o enterro, na esperança de que algum familiar pudesse um dia reconhecer a misteriosa Mulher de Isdalen.

Quase meio século depois, o caso da Mulher de Isdalen continua sem respostas definitivas, mas novas descobertas mantêm o mistério vivo. Em 2016, a polícia reabriu a investigação usando tecnologias modernas e a mandíbula da vítima permitiu análises mais precisas, indicando que ela nasceu na década de 1930 na Alemanha e cresceu na França. Estudos de caligrafia reforçaram essa ligação europeia, e o DNA confirmou sua origem, mas nenhuma correspondência foi encontrada em bases internacionais. Novos retratos falados criados pelo artista Stephen Missal trouxeram à tona uma versão mais detalhada de seu rosto, ajudando a reacender o interesse pelo caso. Depoimentos inéditos lançam luz sobre os últimos dias da mulher. Na época, em 29 de novembro de 1970, Ketil Kversoy prestou queixa na delegacia relatando ter visto a desconhecida correndo assustada por entre árvores, fugindo de dois homens; somente anos depois essa informação foi conectada ao caso da Mulher de Isdalen. Outro morador de Bergen lembrou de vê-la cinco dias antes de sua morte acompanhada de dois homens com casacos “do sul”. Em 2019, um morador da França afirmou ter tido um relacionamento com ela no verão de 1970; a mulher, poliglota e com sotaque balcânico, usava perucas e roupas coloridas, escondendo detalhes pessoais e mantendo telefonemas programados do exterior. Todas essas pistas reforçam a teoria de que a Mulher de Isdalen poderia ter ligação com atividades de espionagem, mas até hoje, sua identidade e os motivos de sua morte permanecem um enigma sem solução.

Sonhador nato desde pequeno, Designer Gráfico por formação e sempre empenhado em salvar o reino de Hyrule. Produtor de Eventos e CEO da Host Geek, vem lutando ano após ano para trazer a sua terra toda a experiência geek que ela merece.

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