Nota
Nem sempre o terror precisa de fantasmas para se tornar assustador. Há algo de profundamente inquietante em ver como sociedades inteiras conseguem naturalizar o sofrimento em nome da ordem, do espetáculo ou da promessa de segurança. Às vezes, basta uma sociedade organizada para assistir jovens caminhando até a exaustão como forma de entretenimento.

A Longa Marcha entende esse princípio e, mais do que adaptar um romance de Stephen King, acaba refletindo sobre o presente. A história, escrita décadas atrás sob o pseudônimo Richard Bachman, encontra hoje uma ressonância ainda mais inquietante. É impossível assistir ao filme sem pensar na maneira como o espetáculo da dor e a manipulação do poder continuam tão presentes na política norte-americana.
Dirigido por Francis Lawrence (Franquia Jogos Vorazes), o filme coloca jovens em uma competição onde caminhar sem parar é a única forma de sobreviver. As regras são simples, mas a simplicidade é o que torna tudo brutal. A marcha é apresentada como espetáculo para o público interno da história, que assiste com fascínio ao desgaste dos competidores. Do lado de fora da tela, nós, espectadores, somos convidados a encarar o quanto também nos deixamos seduzir por uma política que transforma vidas em números e corpos em estatísticas.
Cooper Hoffman vive Raymond Garraty, um jovem competidor com um desejo amargo por trás de sua vontade de vencer a competição. Sua jornada não é apenas física, mas também emocional, marcada por dilemas que ecoam a fragilidade das instituições diante de forças autoritárias. Ao seu lado, David Jonsson oferece um contraponto que traz humanidade ao percurso, lembrando que mesmo sob as regras mais cruéis ainda há espaço para amizade e solidariedade. Já Mark Hamill, como o Major, encarna um poder frio e burocrático, um tipo de figura que não precisa gritar para impor medo. Sua presença dialoga diretamente com a ideia de líderes políticos que, sob o verniz de ordem e progresso, mantêm populações inteiras sob vigilância e controle.

O filme aposta em uma estética seca, quase minimalista, que reforça essa atmosfera política. As estradas vazias e os horizontes áridos parecem refletir o vazio moral de um país que observa, mas não intervém. A fotografia insiste em mostrar a exaustão, o suor e a fragilidade física dos competidores, lembrando ao público que ali não há espetáculo glorioso, mas a exploração do sofrimento humano como entretenimento.
Se em Jogos Vorazes, Lawrence trouxe uma crítica social clara e envolvida em revolta organizada contra o poder, em A Longa Marcha o horror está no silêncio. Não há grito de resistência, apenas passos. Essa ausência de ruptura é talvez a parte mais perturbadora da obra. Em tempos em que os EUA vivem uma eleição marcada por discursos autoritários, por manipulação da opinião pública e pela normalização de medidas violentas contra grupos marginalizados, o filme soa como um alerta incômodo: até que ponto aceitamos caminhar em silêncio, fingindo que nada está errado?
Narrativamente, o longa pode parecer lento em alguns momentos, mas essa lentidão é coerente com a proposta. O desgaste psicológico dos personagens se traduz em cansaço também para quem assiste, e esse desconforto é parte do impacto. A caminhada infinita se torna metáfora para um sistema político que parece girar em círculos, sempre prometendo mudança, mas impondo o mesmo peso aos corpos mais vulneráveis. É uma crítica direta à forma como o poder insiste em se alimentar da juventude e da esperança, consumindo-as como combustível descartável.

Ao final, A Longa Marcha não é apenas uma adaptação bem executada de Stephen King. É um espelho perturbador do presente, especialmente para quem olha a realidade política norte-americana de hoje. A violência travestida de espetáculo, a passividade diante da injustiça e a sensação de que o poder sempre vence ressoam como advertência. É um filme que nos lembra que, enquanto uns marcham até a morte, outros aplaudem da arquibancada — e essa dinâmica, infelizmente, não é ficção.
Victor Freitas
Pernambucano, jogador de RPG, pesquisador nas áreas de gênero, diversidade e bioética, comentarista no X, fã incontestável de Junji Ito e Naoki Urasawa. Ah, também sou advogado e me arrisco como crítico nas horas vagas.